quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

VIVA!



Pessoas se abraçando sorrindo e desejando as melhores conquistas para o novo ano sempre me emocionam.
Desde muito cedo achei a festa de fim de ano mais emocionante que o Natal. Nem sei se consigo colocar aqui como penso, mas vou tentar. O Natal é lindo na sua essência, e é lindo também na pureza das crianças que aguardam o papai-noel com presentes tão sonhados. Mas também é comercio, compras e mais compras que nos enlouquecem, deixando-me com aquela sensação de que falta alguma coisa.
É muito dificil explicar - não é estar triste - é uma inquietação, um espaço vazio, acho que uma certeza brutal de que  eu mudei e nem percebi. Nem tente entender, porque nem eu consigo.
Mas o fim de ano, a promessa de dias novos, conquistas, desafios ... mexem comigo!
Se pensarmos que todo dia é novo, é sempre um recomeço a cada amanhecer, a virada de ano não teria graça alguma.
Mas um dia dedicado a prometer mudanças e a desejar em voz alta aos amigos e à familia querida tudo aquilo de bom que realmente - e sinceramente - sonhamos, é mesmo um dia muito especial.
E penso que se estamos tendo a chance de recomeçar... isso é bom, traz alegria! Então a emoção vem pelo que estamos deixando?... pelo ano que passou?
Dificil realmente explicar. Se estamos entrando em um ano novinho, e acabando de sair do ano velho, não podem ser lágrimas de saudade. Ainda nem deu tempo!
Portanto, escrevendo e pensando sobre isso só posso chegar à conclusão que: - é emocionante porque é uma despedida, e eu não gosto de dizer adeus.
Aquela musiquinha "adeus ano velho, feliz ano novo, que tudo se realize..." eu nunca consegui cantar até o fim, sem sentir um apêrto no peito e a voz sumindo entre lágrimas.
Mas isso não é novidade, desde tempos remotos, na juventude, sempre foi assim.
Mas dados os abraços gostosos, feitos os votos sinceros, levantados todos os brindes possíveis, tudo passa num instante e a festa é linda e alegre.


As pessoas todas deviam escrever sobre suas dificuldades. Isso ajuda a exorcisar, a colocar as bruxas para correr, gritando como loucas...
Para quem ler essa minha última postagem do ano, deixo aqui um pedacinho de mim, bastante emocionada.
Espero que continuem me visitando e lendo minhas bobagens, e me incentivando a continuar, porque adoro quando deixam recadinhos e comentarios gostosos.
Que tenham paz e saúde, amor e carinho, sonhos e realizações. Sintam-se abraçados por essa amiga sincera e fiel que precisa contar suas coisas porque senão nem ela se entende.
Um brinde a tudo o que passou, porque tinha que passar. E um brinde a tudo o que virá, porque tem que vir e nós temos que celebrar!
Tim-tim !!! VIVA!!!




segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

ando sem tempo!



Já que é Natal, e já que a gente pensa "muito" em comida nessa época, vamos falar de coisas gostosas e de como é prazeroso fazê-las?-
Longe de mim ser a Palmirinha, ensinando receitas para minhas espectadoras, nem tenho essa capacidade, e não quero ter...já me basta  o que faço todo dia na cozinha!
Mas Natal requer um pouco mais de sofisticação, de memória para lembrar de nossas avós e mães, e de uma boa dose de coragem para enfrentar um forno quente nessa época de calor intenso.
Acredito que somos - todas nós - umas saudosistas irrecuperáveis, precisando de internação em uma clínica de repouso, pelo fato de fazermos questão de cozinhar em uma época dessas.
Precisa muita coragem para fazer compras, limpar a casa de maneira especial, decorar com motivos natalinos, fazer supermercado com uma lista enorme nas mãos, cuidar das unhas, dos cabelos, comprar uma roupinha nova e mesmo assim achar lindo e romântico encarar o fogão na véspera de Natal - o dia todo!.
As crianças ficam infernais,  só perguntando quantos dias faltam para o Papai Noel chegar, e criam um ânimo tal para correr e falar ao mesmo tempo, que têm-se a impressão de estar em uma panela de pressão, gigante!
Somos todas loucas porque gostamos disso tudo, fazemos todo esse trabalho com um sorriso nos lábios e algumas latinhas de cerveja na cuca, porque ninguém é de ferro. E então ficamos inventando pratos que a memória teima em esquecer, calóricos e pesados - rabanadas, pernil assado, lombo, farofa! - Santo Deus, e de sobremesa bolo com chantili, bastante creme, frutas secas, nozes, castanhas, ufa!  acho que vou abrir mais uma cervejinha bem gelada!
E pensar que tudo isso passa tão depressa, que no dia seguinte restam apenas mais algumas varizes nas pernas e um esgotamento físico brutal - mas uma alegria enorme com aquela sensação de dever cumprido! -
e uma vontade de dormir por dias e dias....
Natal é tudo isso e um detalhe a mais, que eu jamais esqueceria. É uma alegria sem fim, inexplicável, ao ver a familia reunida e as crianças felizes com seus presentes. E é também um momento de meditação e agradecimento por tudo o que temos e podemos dividir com quem amamos.
Saudade dos que já não estão entre nós e comunhão com os que estão aqui e são a razão de toda essa loucura gostosa.
Preciso terminar minha lista de supermercado...acho que esqueci das azeitonas para a farofa...


terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Natal na roça



Esse mês de dezembro é mesmo complicado. São tantos compromissos, e  presentinhos das crianças sempre comprados em cima da hora, e festinhas de natal antecipadas, que quando me dou conta já se passaram vários dias desde a última conversa aqui em meu querido blog. E nesse mês de dezembro tão quente e cansativo me comprometi a lembrar de natais que marcaram minha vida.
Sei que já falei sobre meu querido sitio em Ibiuna,  onde vivi um período doce, cheio de alegrias. Todos os natais, enquanto o sitio foi nosso, foram festejados lá. Uma semana antes e já estávamos com tudo arrumado, empacotado, cardápio decidido,  prontos para as festas de fim de ano na roça! Coincidiam as férias do Luiz  com as festas, e ficávamos por lá até meados de janeiro, totalizando um mês. São os  anos que mais me trazem saudade.
Meus filhos esperavam impacientes pelo  papai-noel,  faziam cartinhas, deixavam bilhetes por todo canto, temerosos de que Noel não se lembrasse dos pedidos. Quando chegava a noite meu marido e eu fazíamos uma parafernália de barulhos e luzes anunciando a chegada do velhinho, enquanto os pequenos ficavam com a vovó, rezando no quarto, e ligadíssimos nos sons lá de fora.
Até que finalmente os presentes já se amontoavam embaixo da árvore e a barulheira infernal do papai-noel indo embora apressado (pois tinha muito serviço naquela noite!) tocando seu sininho ia ficando mais longe, até sumir na porteira. Os pequenos então eram liberados das orações e corriam para a sala, com os rostinhos corados e as mãos estendidas sem saber o que pegar primeiro.
Por mais  que eu viva nunca vou esquecer aquelas noites, nem os olhos de meus filhos procurando algum sinal do velhinho que foi embora tão depressa - por que não ficou mais? - e rasgando os papéis, e abrindo caixas e gritando de surpresa!
Depois que os ânimos se acalmavam  íamos comer nosso jantar, preparado durante o dia  - em meu fogão a lenha - com a ajuda de minha sogra que, invariavelmente,  fazia "crústolis" para as crianças e bacalhau para o maridão português.
Eu procurava agradar as crianças fazendo arroz com uva passa, rabanadas, sempre um bolo enfeitado e - é claro - um tender com frutas para o maridão, que gostava muito.
Posso dizer que era maravilhoso...naquele sitio solitário,  minhas crianças,  meu marido, e meus sogros, não tínhamos medo de nada, não desejávamos mais nada.
Hoje eu sei que a felicidade está nas coisas simples, na alegria de ver os filhos sorrindo, no aconchego do abraço da pessoa amada e companheira, na certeza de que o mundo lá fora é bom com você, na mesma  proporção que você não exige muito dele.
Gostávamos - eu e meu marido - de sair para o quintal, completamente às escuras, e olhar as estrelas de nosso céu. Era tão salpicado de brilho que até parecia uma chuva de luz. Naquela época não sabia o que era saudade, apenas sabia que estava fazendo o que acreditava certo, o que meu coração determinava.
Ficávamos sentados em nossa varanda, luzes apagadas, ouvindo o som que vinha da sala, as crianças rindo, falando com os avós e tínhamos um ao outro, já era o bastante.
Fecho os olhos e sinto o cheiro de nossa ceia, o sabor de uma rabanada, o calor do abraço de meu marido, a alegria totalmente inocente das crianças.
Geralmente no dia seguinte chegavam alguns familiares para o almôço, trazendo coisas gostosas para juntarem com as nossas e passavamos um dia inteiro falando e comendo e rindo muito...
Sobre o papai-noel o que vou dizer é que numa dessas noites de natal, enquanto o Luiz se matava para fazer luzes piscarem, barulhos de trenó, risadas gordas de bom velhinho,  eu e meu sogro - como sempre -  corríamos até o carro dele para tirar os pacotes que ficavam lá guardados. Então... dois xeretas curiosos espiaram pela janela e descobriram - o que já desconfiavam - que era tudo encenação.
Sem traumas nem muitas complicações combinamos com os dois satisfeitos "sabidões" que a brincadeira ia continuar até a caçula também perceber, e que eles iam fingir que acreditavam pra não estragar a magia.
Tudo isso durou ainda muitos anos e chego a pensar que nunca acabou completamente.
Sou uma pessoa feliz,  a vida me presenteou com mais crianças maravilhosas, adoráveis, as quais procuramos envolver na magia do Natal, com luzes, sons, sinos, presentes...
Cada um dos meus filhos tem sua familia, e cada um deles procura fazer suas crianças felizes nessa noite linda. Eu acredito que lá no fundinho de seus corações eles se lembram do amor e da infinita alegria de seus natais de criança. Que essa pequena chama de lembrança nunca se apague...
Vou brindar à alegria, às luzes, às estrelas nas noites de Natal ...que sejam eternas! tim-tim!

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

O chorão!

Como "sabiamente" deixei gravado na minha ultima postagem  : - não vou mais falar de Natal triste - pretendo seguir à risca minhas determinações. Lembranças não pedem passagem, não batem à porta e geralmente têm más intenções. Não há o que corrigir porque não posso voltar no tempo, então, meu grande consolo é falar sobre elas.
Tivemos festas lindas no decorrer dessa minha vida louca. Em algum momento do passado devo ter feito um acôrdo comigo mesma:  - vamos lá garota! vamos ser felizes porque tristeza produz rugas no rosto! - não que isso tenha me livrado delas (as rugas). Mas como dizem os poetas "cada ruga tem uma historia", e as minhas são aquelas que marcam ao redor da boca e dos olhos, de tanto rir.
Tenho vocação para a felicidade, já escrevi isso por aqui, portanto as lembranças amargas me fazem chorar, mas não o tempo todo. Sorrir e falar sobre coisas engraçadas é um de meus passatempos favoritos.
E houve um Natal que foi engraçado, para mim nem tanto, e vou explicar porque. A emprêsa onde papai trabalhou por quase uma vida toda, uma grande fundição, tinha um clube com campo de futebol e enormes eucaliptos em sua volta. Era um lugar lindo, e eu digo era porque hoje é um grande pátio de fábrica. Nesse campo com  grama era realizada, ano após ano, a festa de Natal dos funcionários e suas familias.  Ficávamos o domingo todo por lá, comendo pipoca, algodão doce, lanches salgados e ainda ganhávamos uns sacos de papel cheios de doces coloridos, sorvetes, guraná na garrafinha, ufa! uma delicia.
O papai-noel aparecia de charrete, toda enfeitada e com a banda tocando músicas típicas à frente. Era mágico, lindo! A uma certa altura começavam as ditribuições dos brinquedos, e nós, em fila, esperávamos tão impacientes pelos nossos presentes, que parecia um castigo a fila demorar tanto para andar!
Quando finalmente aquele pacote de papel celofane com laço chegava às nossas mãos - por Deus! - o coração explodia de alegria.
Nesse determinado ano, acredito que 1955, meu pacote trazia um palhacinho de pano, com cabeça de borracha e chapéu de cone. O corpo do boneco já era seu macacão, de bolinhas, e o rosto era pintado com a maquiagem pesada dos palhaços de circo. Não media mais do que trinta centímetros, acredito, e era encantador. Mas, minha alegria durou pouco. Meu irmão Edison, então com apenas quatro anos, sismou que queria o meu brinquedo. Sinceramente não me lembro o que ele ganhou, quem sabe poderá me ajudar a lembrar? Os gêmeos eram bebês e provavelmente ganharam algum brinquedinho de borracha com assobio.
Só consigo me lembrar daquele moleque, chato, chorando aos berros, querendo meu palhaço. Era uma coisa tão insuportável aquela gritaria que mamãe determinou que trocássemos de brinquedo, ele ficando com o meu.
Eu queria entender porque um menino tinha que brincar com boneco, abraçado, andando pelo campo de futebol como se fosse o pai do palhaço....
Meus pais repetiram varias vezes que logo ele me devolveria o presente, que eu tivesse paciência. Ele nunca me devolveu totalmente. Deixava que eu pegasse às vezes, mas até dormia com o palhacinho com medo de que eu o roubasse.
Aquele pequeno ditador...
Isso tudo já rendeu muitas gargalhadas em nossa familia. Os homens brincavam com meu irmão, duvidando de sua masculinidade e sugerindo bonecas de presente, por anos a fio...
Ele por sua vez nunca deu muita importância às provocações, ignorando a todos e namorando todas as meninas que passavam por seu caminho.
O palhaço perdeu-se no tempo, ficou jogado em algum canto quando rasgou a roupa e descolou o chapéu de cone da cabeça pintada.  Eu o desejei muito apenas naquele dia de festa, para passear orgulhosa, abraçada a ele, exibindo, como fez meu irmão xereta e manhoso com sua capacidade imensa de gritar e exigir.
Obviamente não ficou qualquer mágoa, nem poderia pois tudo aconteçeu entre crianças, como deveria ser também entre adultos, tão sábios e experientes, mas com uma capacidade incrível para guardar rancores.
Foi um bom Natal, assim como foram muitos outros que comentarei depois.  Alguma lição a tirar disso?
Agora sim,  passados tantos anos e convivendo com uma quantidade razoável de filhos e netos e sobrinhos,  aprendi que o que vale no Natal é a magia, o clima de festa, o suspense pelo presente, abrir o pacote...o coração aos tropeções.
Notem que as recordações são muito mais nítidas com relação ao ambiente, e nem me lembro o que foi feito do palhaço...
Um brinde às lembranças, aos sonhos de criança, ao papai-noel na charrete tocando o sininho, ao cheiro de grama pisada enchendo o ar.  Tim...tim!


quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Continuando...



Vou continuar revirando minha caixa de Natal. Hoje li uma mensagem muito bonita, feita pelo marido de uma comissária da Gol, que estava naquele vôo fatídico de alguns anos atrás. Ele fala sobre como teria se comportado se soubesse que aquele seria o último dia que a teria junto. É um relato emocionante, dramático mesmo, feito por um homem destruido, um dia após a queda do avião.
Não é fácil você perder uma pessoa querida de maneira tão rápida e brutal. A sensação de abandono de quem fica é devastadora,  a dor é física, na carne. Após ler a mensagem fiquei meditando sobre a possibilidade de alguém saber ou não se vai perder alguém querido, e quando.
Então lembrei-me do último Natal com minha mãe. Era fim de ano e eu ia fazer dez anos em março. Ela já estava muito doente. Sei que ela pediu ao meu pai que comprasse roupinhas novas para nós quatro, eu e meus três irmãos menores, porque tínhamos que ir à missa de Natal de roupa nova. Isso era tradição lá em casa, e ela estando tão mal, e sabendo das dificuldades financeiras de meu pai, mesmo assim insistiu naquilo.
Nos anos anteriores era ela que sentava-se à máquina de costura e preparava roupinhas para todos - inclusive para o bonecão - mas aquele ano não seria possivel.
E lá fomos nós, papai eu e meus irmãos, de ônibus, com uma recomendação de mamãe para que meu vestido fosse modelo "charleston". Nem sei explicar aqui o que significa essa moda. Quem é daquele tempo vai se lembrar. Era uma febre esse tal modelo e ela tinha visto na televisão, provavelmente.
Enquanto escolhíamos as roupinhas, a gerente da loja perguntou ao meu pai onde estava a mãe das crianças, e eu o ouvi  respondendo que ela estava muito doente. Meu pai estava atrás de umas araras de roupa e não percebeu que eu ouvia quando disse: - ela talvez não tenha mais um mês de vida.
Lembro-me perfeitamente de minha reação de espanto, acho que de susto. Minha mãe? então ela não vai sarar? ela vive dizendo que vai ficar boa para cuidar de nós, e ela não sabe de nada?
Mamãe faleceu no primeiro dia de fevereiro.  A previsão de meu pai foi mesmo certa, ela descansou de uma longa  doença.
Então hoje me pergunto: poderia ter feito alguma coisa diferente para minha mãe, sendo que sabia que ia perde-la?
Confesso que fiquei muda, ela nunca percebeu, nem meu pai, nem meus irmãos, que meu coração de criança estava tentanto assimilar aquilo tudo.
Não fiz drama,  era muito menina, não tinha noção do que iria sofrer com a falta dela. Tentava apenas entender porque nossa vida era assim.
Mas voltemos ao Natal, o vestido ficou lindo! Fundo branco e listinhas vermelhas, cintura baixa, pregas na saia, laço vermelho marcando a costura do quadril. Meus irmãos com suas calças e camisas novas,  fomos à missa como ela gostava, nem me lembro muito bem desse detalhe, mas lembro-me de todos enfileirados ao lado de sua cama para que ela nos visse tão bonitos!
E ela sorria e dizia - se comportem na igreja, senão eu fico sabendo em? ...
Não escreverei mais sobre Natal triste, prometo. As próximas postagens serão alegres e divertidas.
Confesso que chorei ao escrever hoje, porque há tempos não tinha imagens tão fortes daquela época.
Aquelas quatro crianças arrumadinhas com suas roupas novas fazem parte de minhas recordações mais dolorosas.
Continuaremos revirando a caixinha de Natal, mas chega de tristeza. Agora é só saudade, mas saudade da boa, daquela que faz florescer um sorriso nos lábios enquanto escrevo. Aquela saudade que transporta no tempo, aquece a alma, tranquiliza o coração. É dessa que eu gosto...até lá.


terça-feira, 30 de novembro de 2010

a caixa de enfeites

Fazem poucos minutos que abri meu armário e tirei a caixa com os enfeites de Natal. São tão poucos, uma caixa pequena, onde estão todos acomodados desde o começo deste ano. Antes eu tinha mais, a caixa era grande, algumas sacolas de papel ajudavam com as coisas mais leves. Fui perdendo pelo caminho, pelos anos afora.
Quando meus filhos eram pequenos a árvore era grande, com muitas bolas e festões, lâmpadas coloridas piscando, estrelas, laços, anjos.
Fazem uns anos que deixei de montar a árvore,  montei o presépio na capela do bairro onde morava e deixei por lá. Guardei apenas o papai-noel lindo e vermelho e alguns enfeites de parede.
Fazem poucos minutos também que ao abrir o armário e pegar a caixa de enfeites, abri a porta das lembranças e me vi menina pedindo um boneco grande para minha mãe.
Naquele mês de dezembro eu a observava fazendo um vestido vermelho para mim, de salpicos brancos, com um laço grande para amarrar na cintura e babados na barra. Com o pedaço de tecido que sobrou minha mãe costurou uma roupinha bem menor, parecia um macacão de bebê. Quando eu perguntei para quem era aquilo ela respondeu rindo - é para seu irmãozinho que vai nascer! - o que me deixava muito confusa porque os gêmeos eram tão pequenos - será que mamãe teria mais um bebê? Ela estava brincando, claro, mas eu não entendia, acreditava. Quando ela começou a fazer sapatinhos em crochê, combinando com uma touca de pom pom, em lã vermelha, eu achei mesmo que era um enxoval de criança. Mas na inocência dos meus sete anos nem me preocupava.
Na noite de Natal, estávamos na cozinha vendo mamãe e minha avó preparando os temperos para as carnes que seriam assadas no dia seguinte, porque naquela época a familia se reunia em nossa casa para um grande almôço. Em uma certa hora minha mãe disse para mim - vá até o quarto pegar um lenço para seu pai - e lá fui eu correndo, acendi a luz e dei de cara com meu boneco sentado em cima do criado mudo, vestido de macacão de salpico, touca de pom-pom e sapatinhos de crochê.
Aquela sensação de surpresa misturada com alegria me fez pegar o boneco e sair correndo como louca, orgulhosa de meu presente e de ter um bebê com a roupa de tecido igual ao meu vestido que eu só vestiria no dia seguinte para ir à missa.
Era um boneco de papelão, muito comum naquela época, uma solução para pais que não podiam comprar bonecas caras,  importadas. Eles eram enormes, com pernas grossas, cabeção com pintura imitando cabelos marrons, olhos azuis - também pintados - e rosto corado, bem cor-de-rosa.
Hoje quando me lembro dele sei que era feio, um tanto grosseiro, brilhante demais. Mas como era bonito para mim naquele dia! Nunca houve um boneco tão lindo em toda a face da terra. Foi um Natal feliz, não me lembro de mais nada daquele dia, nem do outro quando vesti meu vestidinho novo e provavelmente fui à missa, como era hábito. Só me lembro dele com seus imensos olhos azuis que nunca piscavam nem dormiam mas que eram maravilhosos.
É tão fácil agradar uma criança, mesmo as de hoje - basta faze-las esperar pelo presente, sonhar com ele.
E que o momento da entrega seja mágico, único, para que fique gravado na memória como tatuagem, inesquecível.
Aquele boneco ficou no quintal numa noite que eu não me lembro se estava cansada de brincar, se precisei entrar correndo para atender minha mãe ou se foi uma grande falta de cuidado de minha parte.
E naquela noite choveu muito, uma chuva capaz de derreter o papelão e estragar irremediavelmente meu bebê. Nem preciso contar aqui as lágrimas que chorei e a bronca que levei de minha mãe.
Tive outras bonecas, duas ou três, mas nenhuma delas tinha o encantamento do meu bonecão desengonçado e feioso. Quando fecho os olhos e puxo pela memoria consigo ve-lo olhando para mim com seus grandes olhos azuis e o  cabelo esquisito pintado na cabeça enorme.
Tenho várias lembranças de Natal da minha infância e da infância de meus filhos Vou aproveitar a época do ano para contá-las, revivê-las. Vai ser muito bom, abrir o armário, revirar as sacolas e caixas, arejar as recordações e saudades, para quando as festas acabarem tornar a guardá-las com carinho, envoltas em papel de seda, bem no fundinho do coração.
Faz parte da vida lembrar do passado. Alguns gostam de contar, outros apenas lembram e se calam.
Qualquer que seja a opção o importante é ter do que sentir saudade, sempre...

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Larissa




No dia em que ela nasceu chovia muito e o horário não podia ser mais revelador, meio dia!
Hora da boia! um de seus programas favoritos é sempre sentar-se à mesa e comer um bom prato.
Os antigos diziam que quem nasce em dia de chuva é muito chorão. Bingo de novo! adora chorar.
Foi nosso primeiro bebê, mas não minha primeira gravidez. Minha primeira filhinha já nasceu sem vida, prematura, e resolvemos chamá-la Renata, pois queríamos guardar o nome Larissa para nossa próxima menina.
E depois de um parto natural, com todas as dores que vêm no "pacote", ela veio ao mundo chorando muito, como que dizendo "acabou o sossego moçada!".
Nem tanto... era uma criança tranquila, dorminhoca, serena. Uma nenê com a pele morena, pouquíssimos cabelos, linda.
Como a primeira netinha, de ambas as familias, dá para imaginar a festa! Foi muito celebrada,  mimada ao extremo. Acho que celebramos demais, porque essa garota cresceu achando que era uma super "star", tinha que ser cortejada o tempo todo, atendida em todos seus caprichos.
Apesar de amorosa com os irmãos, sempre dizia que estava sobrando na casa, que todos davam mais atenção ao irmãozinho chorão e depois à irmãzinha chata e caçula.
Tudo tão normal em se tratando de familia que hoje nos recordamos disso tudo com muita saudade e boas risadas.
Larissa foi adolescente paqueradíssima, uma garota linda, todos os meninos da escola queriam namorá-la. Minha sogra era apaixonada por ela, vivia jurando que não fazia diferença entre os netos - mas fazia -  não disfarçava a quedinha pela neta mais velha.
O pai nunca permitiu que se notasse qualquer carinho maior por ela, apenas, creio eu, encantava-se ao perceber o quanto eram parecidos fisicamente, e a facilidade com que ela soltava (e solta) um palavrão, em qualquer frase, comportamento bem típico dele!
Pois então... aí está nossa menina, mãe da Valentina,  filha carinhosa, irmã querida e super tia da garotada.
A querida "Tita" dos sobrinhos.
Hoje ela faz anos e jamais deixaria de homenageá-la em meu blog. Não somente porque sinto que devo deixar gravado aqui meu carinho, mas porque se não faço isso (depois de fazer para vários) poderia considerar-me uma mãe excluida, sem a mínima chance de perdão.
Brincadeiras à parte, minha filha, você sempre foi muito amada, e hoje sinto muito orgulho de você.
Uma mulher que está sabendo conquistar seu espaço no mundo, trabalhando e nos mostrando para que veio.
Como sei que você pouco bebe, mas quando bebe adora cerveja preta, vou fazer meu brinde de hoje com uma bela taça, bem gelada, dessa delicia que você tem razão de gostar.
Seja muito feliz, conquiste muitos amigos nessa nova jornada, seja mãe extremosa e mulher corajosa.
Tenha MUITA saúde e não esqueça que te amamos Tim...tim!
Uma foto para matar saudade....que lindos!

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

"inhá" Albina


Esse título de "inhá" ela carregou durante toda a vida. Era uma maneira carinhosa de tratar as mocinhas naqueles idos de 1900, quando minha avó ainda era menina. Explico que não pronunciavam o "S" de sinhá para facilitar, ou por preguiça mesmo.  Mas vamos pronunciar certo, de verdade mesmo -  é "nharbina" - como se fala lá pelos lados de Capivari, Piracicaba e também Sorocaba. E assim foi conhecida, sempre.
Nharbina foi mãe de meu pai, uma figura rara entre as raras. De bela estampa, alta, magra, cabelos sempre com "permanente" para ficarem armados, vaidosa ao extremo. Certa vez quase ficou careca porque disseram para ela que agua oxigenada clareava os cabelos, mas não explicaram qual o tipo ou grau da água,  causando um dano enorme, e o cabelo que restou ficou amarelo como ouro, todo espigado, duro mesmo. Demorou para crescer novamente e ela ria até não poder mais com a tal historia do cabelo de milho.
Fumava muito, cigarros sem filtro, fedidos e que amarelavam os dedos,  porque ela os aproveitava até o fim.
Tudo em volta cheirava cigarro, e todos toleravam esse vício que ela trazia desde menina, porque na velhice já não poderiam tirar-lhe essa alegria.
Quando estava enfrentando os sintomas de sua menopausa, aos quarenta e poucos anos, teve a infelicidade de passar pela pior das dores, seu filho Elidio, caçula dos homens,  morreu de maneira um tanto obscura. Vou pular essa parte, qualquer dia volto ao assunto.
Nharbina entrou em depressão, os hormonios alterados, as dores grandes demais para serem encaradas de frente. Preferiu se enrolar em seu caracol, silenciou, não queria mais brincar de mãe, de avó...
Eu, nessa época muitocriança,  lembro-me bem dos comentários das tias e de meu pai, lamentando que talvez estivesse louca, talvez um hospital para tratamento. Isso também dará outro capitulo, que eu prefiro contar à parte.
Ela não estava louca, apenas depressiva e muito doente, numa época em que não davam muita importância para esses problemas de mulher. Quando voltou do sanatório minhas tias levaram-na e a um centro espírita muito respeitado em Sorocaba, pois ela insistia em dizer que via um homem chorando em um canto do quarto.
Ela chamava esse homem de "sofredor" e as seções de mesa branca, de bençãos e passes, aliviavam aquela cabeça sofrida de mãe sensível e amorosa.
Com o tempo e o apoio constante dos amigos do centro e da familia,  recuperou as gargalhadas quando achava graça de nossas palhaçadas, agora os netos todos já crescidos, alguns já adultos.
Fumou a vida toda e lembro-me dela tirando do bolso da saia um lenço amarrado com vários nós, que ela desfazia com os dedos amarelos de tabaco e tirava dinheiro para um dos meninos ir ao bar comprar cigarros.
- pode comprar doce com o troco, traga bala de hortelã!
Um traço marcante seu era o hábito de fazer perguntas indiscretas aos netos, que respondiam de maneira mais indiscreta ainda esperando que ela ficasse corada, mas qual! encarava com muito jogo de cintura qualquer brincadeira da moçada.
Se a música no radio era alegre, puchava um neto ou uma neta e saia dançando, o que nos fazia felizes.
Por morar longe de sua casa eu pouco convivi com essa "sinhá" divertida, apenas nos períodos de férias, ou quando meu pai ia buscá-la para passar uns dias conosco.
Achava muita graça, uma delicia mesmo, quando ela dizia no meio de uma conversa: - coitado do Tide, olha como tá magro, esse meu filho não tem saúde!
Tide é meu pai, sempre foi magro, e todas as vezes que nos víamos era sempre a mesma observação. Virou até folclore na familia o "coitado do Tide".
Minha madrasta, Joana, ficava muito brava e dizia - até pareçe que a gente não dá comida pra ele,  sempre foi magro!". E todos nos divertíamos muito, até minha avó que teimava em explicar que Tide era mais gordinho quando solteiro - era nada!
Não me lembro, por mais que tente, de um prato ou guloseima que tenha feito em sua cozinha. Acho que não era dada à culinária, fazia o trivial. Também não se prestava a trabalhos manuais (pronto, descobri de quem herdei a dificuldade nos trabalhos artísticos) apenas costurando algumas roupas para ela mesma.
Quantas lembranças! ficaria aqui por horas escrevendo sobre aquela mulher divertida em sua inocência de pessoa humilde, desprovida de cultura, acho até que nem sabia ler, mas com olhos brilhantes e alegres de "sinhá" bonita e vaidosa, que namorou e casou com Plácido, meu avô,  na fazenda Samambaia, dando frutos queridos dos quais ela tinha muito orgulho.
Essa foi minha avó, uma das culpadas de tudo o que somos hoje - meio loucos, meio paranoicos - mas com essa alegria nos olhos, esse gostar de dançar, essa alegria de estar junto.
Para Nharbina eu levanto meu brinde de hoje e celebro a mágica de viver em meio a nuvens de fumaça, música no radio, lágrimas e sorrisos. Essa foi sua vida durante anos e anos e, para mim, foi o que ficou. Tim...tim!

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Menina moça




Talvez ela tivesse entre doze ou treze anos, magra, cabelo indefinido, querendo ser crespo, querendo ser liso.
Alta em relação às meninas de sua idade, sorriso tímido querendo ocultar os dentes que ela achava tortos, mas que não eram.
Sardas no rosto, poucas, mas que ela achava muitas quando se olhava no espelho. A mãe tinha contribuido, anos atrás, com essa paranóia de que sardas devem ser clareadas. Quando lavava o arroz, colhia a água e fazia a menina lavar o rosto com ela. Não podia enxugar! Com isso, fez com que ela acreditasse que as sardas eram feias, escuras. Mas não eram, eram adoráveis, simpáticas. Só que ela não sabia.
Quando começou a conversar com as amiguinhas sobre a chegada da primeira menstruação deixou-se tomar pelo pânico.  Essa garota nunca soube, ninguém contou a ela o que acontecia com as mulherzinhas daquela idade. Então teria também que menstruar? Ficou completamente sem rumo, resolveu que perguntaria ao pai. E perguntou.
Quando a vi chegando, sorrateira, querendo me confidenciar sobre esse dia, fiquei com pena ao pensar  naquele pai, chegando do trabalho e percebendo - porque ele percebia -que a filha estava com o rosto tenso, sem saber como começar o assunto.
- pai, minhas amigas já ficaram mocinhas, só eu ainda não.
Ela me conta, quando estamos conversando sobre aqueles dias, que sentiu muita vergonha. Nem sabe como conseguiu começar a falar.
O pai, como sempre, mostrou a maior naturalidade, explicou que algumas meninas demoravam mais, e que "era assim mesmo". Deu mais algumas explicações e sugeriu esperar o tempo se encarregar disso.
Mas o tempo não se encarregou e então aconteceu um fato novo, que quando ela me conta, rindo, eu só posso rir também. As preocupações se inverteram. O pai perguntava a ela se não tinha novidades e ela se envergonhava em dizer que não. Seria normal? Não seria melhor procurar um médico?
Lá se foram, pai e filha ao consultório de um médico de confiança. Nos nossos momentos de aconchego e confissões ela me conta que sentiu muita vergonha quando o doutor começou a fazer perguntas, dar explicações,  falou até sobre sexo!
Pobre menina, criança ainda e tendo que aprender através de  um estranho o que seria natural ser explicado e resolvido por uma mãe.


São muitas as noites que conversamos até tarde, rimos ou choramos, depende de nosso astral, depende da quantidade de cerveja que tomamos.
Ela me garante que superou esses pequenos traumas, que vive bem com essas lembranças, ora boas...ora divertidas...não raro tristes. Falou-me sobre quando suas filhas "ficaram mocinhas", do modo como foi  emocionante para ela, porque pôde participar, ensinar...
Quanto à sua primeira menstruação contou ao pai, envergonhadíssima, olhos baixos, como se fosse algo feio de dizer. O pai sorriu, perguntou se precisava de alguma coisa e lembrou-lhe o que o médico havia dito.
Muitos anos se passaram até que voltassem ao assunto. Quando  já estava casada e com as filhas adolescentes o pai um dia perguntou: - já disse para as meninas o que elas precisam saber sobre os assuntos de mulher?
Diante da resposta afirmativa ele apenas sorriu e olhou para ela com aquele olhar cúmplice que só ele tinha.
Quando vejo minha amiga lembrando-se desses momentos, pergunto se quem teve um pai tão presente, precisaria mesmo de uma mãe. Ela me responde sorrindo que sim, que sentiu a falta da mulher forte ao seu lado em alguns momentos cruciais, como nos partos. Mas que sobreviveu, não estava alí?
Sim, ela está aqui comigo. Às vezes menina, às vezes já velha, mas está aqui me olhando com olhos curiosos, à espreita, esperando que eu me dirija ao computador para contar mais um pouco de nossa história.
Quem diria amiga, que um dia seríamos companheiras de blog, e escreveríamos a quatro mãos nossa historia de vida.
Como conheço essa mulher que tem a mania de ficar menina quando me procura, sei também que ela jamais terminaria uma conversa sem levantar um brinde, porque adora celebrar a vida.
Aqui fica então nosso brinde de hoje, feliz e sem traumas, apenas repleto de boas recordações e saudades.
Saúde! tim...tim!

terça-feira, 9 de novembro de 2010

obrigada!



Seu nome é Norma. Em uma conversa com minha filha, dia desses, citei seu nome e fiquei com uma saudade gostosa remoendo minha cabeça, pensando em  falar alguma coisa sobre minha amiga.
Quando eu tinha 14 anos, quase 15,  conheci a Norma, ela então com 30 anos. Meu pai, através de amigos de trabalho havia conseguido me colocar em uma grande emprêsa de Osasco, como auxiliar de secretária.
A secretária do Departamento era ela, e eu fazia os serviços rotineiros de datilografia, arquivo, cópias....
De principio achei que a diferença de idade e a situação dela na emprêsa, jamais permitiria que fôssemos amigas. Na verdade, fiquei apavorada, porque eu era uma adolescente sem experiência alguma, nem de vida e muito menos profissional.
Já a Norma era uma mulher madura, ao menos eu a via assim, e seu comportamento deixava transparecer que eu estava certa. Comedida nas palavras, vestia-se sempre com elegância, saias justas, saltos altos, cabelo curto e bem penteado. Hoje, quando vejo Marilia Gabriela na tv, lembro-me dela, têm o mesmo tipo, menos a voz.
Meus temores logo foram embora. Fui acolhida como um mascote do departamento. Todos eram gentis e carinhosos, mas ela foi além, foi amiga, quase mãe. Como leitora fanática resolveu que devia me apresentar à literatura, devagar, emprestando-me livros (sem que eu pedisse) de José de Alencar, depois Casemiro de Abreu, depois Graciliano Ramos, e quando eu menos esperava, vieram os autores internacinais como Cronin, Pearl Book, Hemingway, Charles Dickens, e por aí afora.
Mas tudo era muito sutil,  numa conversa qualquer ela perguntava:-já leu fulano? quando a resposta era negativa, lá vinha ela com um livro para me emprestar.
E durante meu período de leitura, ela perguntava sempre - casualmente - em que parte do livro você esta?
Diante de minha resposta  fazia perguntas e comentários para que eu entendesse melhor o livro. Pouco tempo depois eu já estava apaixonada pela leitura, a ponto de não conseguir ficar sem um livro nas mãos.
Lembro-me dela falando ao telefone, sempre rodando um brinco na orelha, cadeira afastada da mesa, voz baixa e conciliadora. Solteira convicta, duas faculdades, vários namorados mas nenhum tão interessante a ponto de leva-la ao altar. Suas férias, invariavelmente, eram passadas em Parati. Eram tantas fotos, tantas historias engraçadas e divertidas, a ponto de passar para mim o carinho que ate´hoje tenho por aquela cidade linda. Só fui conhecer Parati depois de muitos anos, com minha familia, e entendi porque ela gostava tanto dali.
Alguns anos depois, talvez uns cinco,  ela foi convidada a trabalhar em um famoso laboratório alemão, lingua que  dominava, assim como o inglês, e foi um convite irrecusável. Lá se foi minha amiga, deixando-nos - a todos do departamento - meio órfãos e muito tristes.

Nossa amizade nunca saiu das paredes da emprêsa. Nunca fomos a uma festa, jantar ou cinema. Nossas vidas eram totalmente diferentes, os amigos e amigas dela eram pessoas mais velhas e bem mais interessantes que meus amigos. 
Perdemos o contato alguns anos depois, quando me casei e fui cuidar de minha familia. Até o último cartão que me mandou ainda estava solteira, feliz, fazendo tricô  - fazia blusas lindas de lã - para presentear o atual namorado.


Lembro-me dela rindo e dizendo: - eles ficam comigo até a blusa ficar pronta. Depois somem...
E eu dizia :- você é boba, já que sabe disso porque não tricota e desmancha...tricota e desmancha...
Oxalá toda menina sem mãe tivesse uma amiga como eu tive. Gostaria de encontra-la hoje para dizer tudo isso pessoalmente. Qualquer hora tento achá-la no Google, quem sabe?  lembrará de mim? estará bem?
Sei que parte da pessoa que sou hoje, devo a ela, e essa é a mágica.  Ela nunca me disse "vou ensinar uma coisa para você". Ela ensinava sem que eu percebesse, sem me chatear, me respeitando.
É claro que hoje meu brinde com cerveja geladíssima será para ela.
Obrigada querida por ter suportado minhas chatices de adolescente, meus papos furados sobre rock, Elvis, Beatles, paqueras, briguei com o namorado... voltei com o namorado...
Quem sabe um dia ainda nos veremos e vamos rir muito daquele tempo delicioso, quando aprendi o valor de uma amizade sincera e desinteressada, pois de mim você pouco esperava, nem mesmo  esse agradecimento tardio. Saudade...