quinta-feira, 29 de março de 2012

Como um sonho



Quando depositou a mala nas pedras frias e bastante gastas da velha estação, um suspiro profundo chegou até a garganta.
Mas ela o engoliu.
Havia jurado, para si mesma, que tudo seria sem lágrimas nem dramas.
O dia mal havia clareado, muito cedo ainda, e naquelas horas de pouca luz uma brisa soprava suave, geladinha.O horario ideal para uma despedida.
Esses primeiros raios da manhã lembravam sua infãncia, quando descia a rua de terra batida da casa dos pais para ir á escola. Lá embaixo, na planície, caminhava rápido para não se atrasar, passava pela casa da amiga Martha, e iam tagarelando até às margens do riacho que passava ao lado do predio de madeira.
Quanta coisa linda aprendeu naquela escola.  Inclusive aprendeu,  aos dez anos, que a vida podia ser muito mais dura com uma criança do que supunham suas amigas.
Mas sobreviveu, e agora partia. Uma estranha sensação de impotência chegou a deixa-la deprimida por um minuto, talvez nem tanto.
Olhou em volta, sorriu levemente, como Monalisa, aquele sorriso de enigma, mas de poder.
Sim, ela estava indo embora. Trocou de emprego, trocou de roupa, e de enderêço.
Colocou as poucas coisas que realmente valiam a pena na velha mala dos pais e saiu bem devagar da casa que havia sido um lar, um dia.
Voltaria, quem sabe, para matar a saudade. Olha só essa palavra boba já começando a incomodar...
Ao longe o barulho de rodas de ferro deslizando pelos trilhos brilhantes. Um ultimo olhar em volta,  algumas pessoas haviam chegado, silenciosamente, nem notara.
O trem apita na ultima curva antes de surgir, imponente, dono de seu destino, e do dela.
Meninas pobres são assim, valentes e lindas. Ela não tinha medo, era valente e linda, como num filme, como num sonho.

domingo, 25 de março de 2012

Sinistra?



Lá vou eu falar de um assunto que me interessa, e muito.
Muitas das opiniões que direi aqui foram colhidas em leituras que fiz sobre o que significa ser "canhota" nesse mundo feito para destros (ou direitos).
Posso garantir que não existe dificuldade que não seja superada.  Não é de hoje que sou canhota rsrsrs, portanto, já nem me lembro mais que sou. Apenas quando alguém nota, ou quando me deparo com um abridor de latas.
Ou, com uma tesoura. Um apontador de lápis. Um caderno espiral, porque tenho que escrever com a mão em cima do arame.
Câmeras fotográficas, violões, e a famigerada carteira escolar? aquela que tem um quadradinho de madeira sempre do lado direito?
A regua, que me obriga a riscar ao contrário...e por aí afora. Mas tudo isso eu já tiro de letra, sempre tirei.
O que me intriga, sinceramente, é a origem da palavra sinistro. Não lembra coisa ruim?
Quando acontece um acidente o que as pessoas dizem? O veículo sinistrado.
Quando a historia é sobre bruxas ou vampiros, o que dizem? Nossa, que sinistro!
O que nós, pobres canhotos temos com isso?
Na antiguidade, acreditava-se que o canhoto era o contrário do direito, do certo. Jesus mesmo teria dito que estaria ao lado direito do Pai, quando chegasse aos céus.
E porque o correto é estender a mão direita ao cumprimentar alguém?
Antigamente acreditava-se que a esquerda traria azar...ai, ai,  que feio isso!

Vou me consolando em ler os nomes de pessoas famosas que foram ou são canhotas.
Napoleão Bonaparte, Leonardo daVinci, Michelangelo, Beethoven, Charles Chaplin, Airton Senna, Papa João 23, Einstein e...Eric Clapton, Marilyn Monroe, Paul Simon e muitos outros com certeza.

Estou me divertindo ao escrever esse texto, pois sei que muitos  vão dizer que o mundo está cheio de celebridades,  que eu consegui reunir alguns canhotos e já estou toda exibida.
Mas convenhamos, trata-se de uma lista linda!

Portanto,  vamos lá pessoal... começar o dia com o pé esquerdo...!!!



terça-feira, 20 de março de 2012

Como é que é?


Tem dias que me sinto tão impotente. Hoje foi um deles, diante de um fato que ocorreu no banco.
Fila de banco...hoje em dia já não é tão cansativo, pois existem cadeiras, senhas, ar condicionado.
Estava bem distraida, aguardando o sinal eletrônico me chamar que não reparei na mulher gordinha que sentou-se ao meu lado.
Sou meio surda (meus filhos riem quando digo que sou "meio" surda) e quando percebi que a tal mulher falava comigo virei-me para ler seus lábios.
Ela estava falando comigo mesmo! Com uma das mãos em concha na boca, para que a vizinha dela não ouvisse. Disse-me:-
- que falta de educação! isso não se faz com as pessoas, veja se isso tem cabimento!
Fiquei alarmada, afinal, nem sei se perdi algumas palavras, pois a mão em concha dificultava a leitura labial...
Mas do que aquela criatura gordinha estava reclamando?
Depois de mais algumas palavras sussurradas, que não ouvi mesmo, costurei algumas outras e entendi que a vizinha dela falava ao celular.
Resumindo, a mulher (vizinha da gordinha no celular) convidou a pessoa com quem falava a ir junto com ela em um jantar de familia.
Só que a pessoa do outro lado não tinha sido convidada, mas a outra dizia que não tinha problema, era só ir chegando...
Deu pra entender? Tremenda falta de educação, levar alguém num jantar sem ser convidado.
Mas...o que a gordinha do meu lado tinha a ver com isso?
Ela continuou sussurrando, torcendo a boca, mão em concha e eu tentando entender...
Que situação! como as pessoas são ridiculas quando se acham no direito de criticar os outros, sendo que elas mesmo estão sendo invasivas.
E eu alí sentadinha, refém daquela mulher gordinha, de tiara marrom nos cabelos ruivos (falsos!)  torcendo para chamarem meu número.
Até que enfim, chamaram ! levantei-me pedindo licença e ainda consegui ouvir a redondinha falando pra mim:- "tem gente que não se enxerga..."!

Aff! foi muito cansativa minha tarde de hoje.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Vésperas de outono...



É vespera de outono, ja quase meio de marco e se aproxima a época do ano que mais gosto.
O outono tem dias azuis, brilhantes como se fossem de vidro. Céu limpo, raras nuvens, brisa fresca ao entardecer e noites deliciosas e estreladas.
Sem aquele frio chato que faz doer os ossos (principalmente na minha idade) e sem o calor insuportavel dos dias de verao intenso que estamos finalmente vencendo.
Gosto demais desses dias de abril e maio, que ainda nao sao tao secos, mas nem tao quentes e umidos. Enfim, minha estacao favorita. É quando sinto que a vida recomeca,  brotando do solo molhado pelas chuvas de verao.

Bom...mas ainda é verao, um calor irritante por aqui, céu carregado de nuvens... e pensar que nasci em um dia assim.
E pensar que o primeiro ar que entrou em meus pulmoes foi de verao, foi umido, foi demasiado quente.

Amanha faco aniversario, dia 13.

No dia 15 meu querido Thiago, sobrinho fofo, grande amigo.

E no dia 18 meu irmao Edison, companheiro de longa data, desde o primeiro berro (dele!).

Portanto, parabens para nos, parabens a todos que aniversariam em marco, e obrigada ao Criador por nos presentear com amigos e parentes queridos com quem podemos celebrar.

Um brinde a todos, tim-tim, que a saúde seja plena e que esse verao acabe logo para nos deliciarmos com o outono, finalmente...

terça-feira, 6 de março de 2012

comemorar?


Era 8 de março de l857, Nova Iorque, muitas funcionarias de uma tecelagem decidiram entrar em greve para reivindicar:
- redução da carga horária para 10 horas  (trabalhavam 16 horas por dia)
- equiparação salarial com os homens (recebiam um terço do salario masculino)
- tratamento digno dentro do ambiente de trabalho, pois eram maltratadas pela chefia, não tinham privacidade  no banheiro, não tinham liberdade para trocar uma palavra sequer com as companheiras de trabalho.

O resultado dessa greve? foram trancadas na fábrica, que foi intencionalmente incendiada, matando ao menos 130 mulheres.

No ano de 1910 decidiu-se então que 8 de março seria o "dia internacional da mulher" em homenagem a essas mártires que estavam apenas pedindo o direito à dignidade.

Sei que os amigos que lerem essa postagem já sabem dessa passagem negra da historia. Sei também que todos entendem que o dia 8 de março não é apenas o aniversário da Hebe Camargo, nem o dia em que devemos oferecer rosas às mulheres que entram no supermercado, ou no banco.

Vejo como um dia que marca o início da luta das mulheres pela igualdade, pelo reconhecimento.
Muitas lutaram sempre. Grandes mulheres que de alguma maneira marcaram sua época pela força e coragem.
Outras que marcaram pela humildade e amor:-
Maria, mãe de Jesus, que o criou, educou, e transformou no homem mais poderoso de toda a historia.
Madre Tereza de Calcutá, Irmã Dulce,  exemplos de amor incondicional às crianças e aos pobres.
Quantas outras?  tantas que nem caberiam aqui, mas que merecem nossa homenagem todos os dias.

Nos deparamos diariamente com noticias envolvendo mulheres estupradas,  vitimas de violência doméstica, humilhadas. Meninas que sofrem abuso sexual, que são vendidas para prostituição, que perambulam pelas grandes avenidas pedindo esmola.

Meninas que catam lixo para comer, com um irmãozinho no colo,  já velhas e doentes nos seus 8 anos de idade. Mulheres velhas abandonadas em um canto da casa, sofrendo mal-tratos da familia, ignoradas como um pano de chão.

Quem ainda não viu essas imagens na Televisão? Perguntarão "mas e os homens, os meninos?" .
Também sofrem, são discriminados, violentados. E eu respondo que  hoje falamos de mulher.
Em outra ocasião falaremos dos meninos, dos homens à margem da vida.

Não é um dia para comemorar, definitivamente não é É um dia para baixar a cabeça em oração e agradecer por sermos privilegiadas em nossas casas,  no seio de nossas familias,  por termos filhas e noras respeitadas e felizes.
Um dia para pedirmos aos céus que abençõem nossas meninas, netas, irmãs, sobrinhas, primas, para que nunca sofram o que a grande maioria das mulheres do mundo sofre.

Não levanto brinde, não comemoro, não quero rosas na porta do supermercado, do banco, do shopping.
Quero apenas perceber que o mundo está mudando e que as mulheres ainda serão o esteio dessa terra, ao lado de seus homens,  sendo respeitadas e amadas. Lindas e felizes.
Meu carinho para com minhas amigas, beijos.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

O jejum na quaresma



Desde muito pequena, quando comecei a frequentar a igreja e ouvir os sermões, me ensinaram que é importante o jejum. Jejuar na quaresma.
Sei que muita coisa mudou - particularmente eu - desde aqueles tempos, e que o jejum já não tem o mesmo peso na quaresma.
Conheço pessoas que ainda praticam esse costume.  Algumas aproveitam para perder peso, deixam de tomar cerveja e outras bebidas alcoólicas nos quarenta dias que precedem a Páscoa. Outros abstem-se de comer carnes e derivados para provocarem uma desintoxicação.
Tudo é válido dentro do contexto dessas pessoas, e nem vou discutir isso.
Apenas lembrei-me hoje de uns versos que li, há alguns anos, falando sobre jejuns. Não recordo na totalidade, portanto, vou postar a minha opinião sobre os jejuns, inspirada naquelas lembranças.

Sugiro que voce jejue de palavras que magoam, que ferem, afinal isso não é amar.
E que voce jejue de ofensas ou injurias, porque não é assim que conseguirá vencer.
Jejue também de pessimismo porque a esperança é que traz a alegria de viver.
Porque não jejuar de preocupações? elas só te trazem azia e noites mal dormidas.
Que tal jejuar de lamurias e reclamações? isso deixa voce com uma péssima aparência.
Vamos também jejuar de tristezas, elas não conduzem a lugar algum, apenas dão olheiras.
Ah! quanta alegria em jejuar de egoismos! fazer alguém feliz é a mais nobre missão.
E jejuar de rancores? esquece-los, perdoa-los, desintoxicar-se por completo de coisas más.
E por fim jejue de palavras. Fale sim, mas viva o silêncio também, para ouvir os outros e com isso dar-lhes o brilho de seu olhar amigo.

Viver a quaresma com amor, é essa minha proposta.
Vamos nessa? . . .

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Um anjo




Já se passaram muitos anos desde que carreguei comigo uma saudade dolorosa de um ser que nem mesmo conheci o rosto. 
Penso que gerei um anjo, a pedido dos céus,  e entreguei-o aos sete meses de gestação... prontinha.
Lembro-me de ter ficado muito infeliz.  Mas acredito agora que os anjos são feitos assim, através de mães jovens e sonhadoras,  escolhidas para enviar ao Pai os anjos que eles necessitam por lá.

Algum tempo depois o primeiro bebê que me colocaram nos seios foi Larissa, minha filha mais velha. Morena, olhos grandes e escuros, curiosos.
Quantos sonhos e planos fizemos para ela! Foi tão esperada, tão bem recebida e mimada que ainda hoje adora confetes e aplausos quando abrem-se as cortinas.
O segundo filho foi o Junior. Parto complicado. Nosso menino quase não sobrevive, teve que sofrer e lutar muito para ver a luz.  Mas essa luz até hoje brilha em seu caminho. Precisava viver... e agora ele nos mostra porque. Cabelos cacheados e sorriso de menino, sempre menino.
A terceira, tempos depois, foi Juliana.  Pele clara, boca muito pequena em contraste com os olhos enormes.
Temperamento questionador, impunha sempre a sua vontade,  para desespero dos irmãos.  Mãos de artesã, herança das tias portuguesas.

Se colaborei com os céus, enviando um anjo cor-de-rosa para brincar em suas nuvens, fui recompensada com filhos queridos e netos perfeitos e saudáveis.

Portanto, sempre que alguém pergunta de onde vem minha alegria e meu entusiasmo, penso neles.
É nessa familia que busco energia e amor.

E você, onde busca?

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

O armazém



Era o armazém mais bem equipado da cidade. Ficava na rua principal, que começava na estação de trem e subia, grande, uns dois quilômetros, até a Igreja Matriz de Santo Antonio.
Em linha reta, subindo, de qualquer lugar que alguém estivesse poderia ver  lá no alto a Igreja bonita, com o prédio do seminário se exibindo ao lado.
Essa era a rua Antonio Agú, em Osasco, nos meus anos de menina. E lá se vão tantos anos!
Voltando ao armazém, lembrei-me dele ontem ao ver uma foto na internet. Essa que postei acima.
A mesma impressão de desordem, as mercadorias espalhadas pelo chão, o longo balcão onde eram empacotadas as compras.
Atrás do balcão uma prateleira grande, até o teto, onde ficavam as latarias, as velas, fósforos, latas de biscoitos, macarrão e assim por diante...
Pelo chão as sacarias de batata, cebola, arroz, feijão, açúcar, trigo, farinha de milho, e nem me lembro o que mais.
O óleo ficava em um tambor, com uma espécie de bomba manual,  que com um simples movimento do braço enchia um litro, ou uma lata grande.
Caixas de bacalhau, peixe do tipo manjuba muito salgado, goiabada, carne seca, ficavam espalhadas pelo armazém, deixando no ambiente um perfume inesquecível,  delicioso.
Juntavam-se aos aromas os salames e linguiças secas caindo  do teto, de inúmeras cores.
Bem ao lado da porta um rolo enorme de fumo de corda, que era vendido aos pedaços para que os fumantes fizessem seus cigarros fedorentos.
O dono era o  sr. Luiz, um japonês falante  que tinha sempre um sorriso no rosto redondo,  deixou em mim uma lembrança adorável de pessoa calma e feliz. Sua mulher, Ana,  perguntava de minha mãe, desejava melhoras, preocupava-se em me ver atravessar a rua com a sacola cheia e pesada.
E eu menina, ia encurvada com o peso da sacola de lona, levando para casa a mercadoria que minha mãe havia escrito na listinha.  Nunca deixei a mercearia sem um doce para ir comendo no caminho. Eram pés-de-moleque, doce de abóbora, de batata-doce ou doce-de-leite.
Ana nunca me deixou ir sem antes colocar um doce em minha mão.
E eu ia com a grande sacola pesada,  mas a alma alegre porque na inocência de minha meninice  ainda não tinha percebido o grande drama que estava sendo preparado.
Saudade da Ana e do Luiz,  do armazém e também do perfume que tinha lá dentro. Era o cheiro da fartura, do queijo meia-cura, do pó de café moído na hora.
Que delicia de saudade. Voltei a encontra-los varias vezes depois que fiquei adulta, eles já velhos, aposentados.
Sei que já não estão entre nós, mas a recordação do Luiz anotando as compras na cadernetinha em seu balcão, ajeitando tudo bem arrumadinho na sacola, preocupado se não estaria muito pesado para mim...
isso nunca esquecerei.  Para uma criança um sorriso é um presente inesquecível.
Opa, me deu vontade de comer um pé-de-moleque. Quem me acompanha?


segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

à beira-mar





Quando o calor convida para um passeio, uma voltinha à tarde, na hora da fresca, sinto vontade de morar á beira-mar.
Pode ser que nem todos concordem, mas dificilmente uma caminhada é mais prazerosa do que na areia, descalça, deixando o finzinho da onda lamber seus pés.
Nesse último passeio á Ilha aproveitamos apenas um fim de tarde assim. Chovia, mas como estava calor, eu e minha mana resolvemos caminhar sob a garoa.
Chinelos nas mãos, muita vontade de andar e uma sacola de assuntos para desfiar. Só voltamos para a pousada quando a noite nos surpreendeu, quente e úmida, chuvosa, estávamos ensopadas mas com a garganta seca de tanto falar rsrsrs
Uma parada no supermercado da esquina para comprar umas latinhas de cerveja geladinha foi um sacrificio enorme...beber a cerveja depois do banho foi  quase insuportável.
Mas fizemos um tremendo esfôrço e conseguimos.  Conversar, rir e tomar cerveja em uma noite chuvosa na praia. Será que aguentariamos tanto sofrimento?
Eliana me liga sempre, pergunta: -quando vamos novamente?
Nem sei se quero repetir essa aventura. Foi muito divertido, os passeios pela ilha e nossa esticada até a Juréia foram uma delicia para os olhos e o paladar, mas...como é dificil voltar.
E nesses dias, como hoje, quando um calor insuportável teima em entrar pelas janelas e me incomodar, penso se gostaria de dar uma voltinha na beira da praia, com aquela garoa bendita batendo em meu rosto.
O que responder para a mana?
Ah! Eliana, é bem melhor ficar por aqui mesmo, sentir o suor escorrendo pelas costas, sem vontade sequer de cuidar da casa ou fazer uma refeição.
Não vamos repetir essa loucura,  para que? depois resta-me ficar aqui,  olhando pela sacada esse sol inclemente, essa brisa inexistente, esse inferno todo,  e morrendo de saudades... (não é Chica?)
Não querida, não vamos voltar tão já...é muito ruim sair de lá. Deixa assim como está. Quem sabe um dia vou com a mudança toda,  passarinhos, panelas e travesseiros?
Você iria morar à beira-mar?

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Que pena!

 
A mãe contava sempre que ele nasceu ao meio-dia de um domingo, era carnaval.
Chovia muito, e ela havia passado a noite sofrendo as dores e ouvindo os sons que vinham do salão do clube, um quarteirão acima.
Seria esse o motivo de sua antipatia por carnaval? Ou melhor, seria  o motivo  por gostar tanto de  músicas?
Nascer em um domingo de carnaval, ao meio-dia,  tem muitos significados, imagino eu.
Todos dormiam, cansados, alguns com os cabelos salpicados de confetes, lençois cheirando a lança-perfume.
A chuva gostosa batendo nos telhados de barro das casas bonitas, vila operária em uma cidade do interior.
Casas de tijolinho aparente, trepadeiras nos terraços, pés de manga e abacate no quintal, galinhas procurando um cantinho para se esconder com seus filhotes das gotas de água que não paravam de cair.
Era a casa da "mama", vó materna carinhosa e que jamais aceitaria um parto de suas filhas a um metro de seus braços. A mama que eu conheci e sei que já estava com a canja de galinha preparada no fogão a lenha,  para fortalecer a filha.
Domingo de carnaval, som de chuva, cheiro de terra molhada, terra em repouso, recuperando-se do calor e do barulho dos palhaços e colombinas alegres e despreocupados.
E nesse clima ameno, silencioso, eu diria até poético diante do quadro que pintei em minha retina, nasceu o menino chorão,  como se gritasse "cheguei!".
Acredito mesmo que veio ao mundo para acrescentar, para fazer diferença, não para ser mais um.
Pai de meus filhos, meu saudoso marido faria aniversário nesse sábado, dia 28.
Gosto de pensar nele, lembrar historias dele, sentir saudade.  Que pena!