Ferias, aqui em casa, tem outro nome : loucura!
As crianças presas em apartamento ficam incrivelmente entediadas, e a vovó também.
Portanto, tudo sai da rotina, o dia fica confuso e a gente não dá conta dos compromissos.
Mas hoje vou contar porque não aprendi a andar de bicicleta.
Imaginem uma rua tranquila, com uns duzentos metros de espaço plano.
Ao fim dessa planície voce tem duas opçoes: ou desce para a rua que leva à avenida principal, lá embaixo, ou vira á esquerda para entrar em outra rua.
Apenas um detalhe, aqui muito importante: se voce não desce para a avenida, mas também não vira à esquerda, tem um terreno baldio bem à sua frente, inclinado para baixo, como um barranco, onde as pessoas antigamente jogavam lixo.
Mas era muito lixo, o serviço de coleta não funcionava no bairro, consequentemente, sempre havia alguém virando uma lata de lixo por lá. Eram restos de comida, frutas, legumes, papeis, enfim, tudo o que vai para o lixo.
Vez ou outra alguém entrava lá, cobria de mato e colocava fogo, para evitar mau cheiro, ou bichos indesejáveis.
Como era um grande lote baldio, ninguém se importava com isso.
Como sempre quis andar de bicicleta, tomei a decisão de aprender, aos 11 anos, mas tinha medo. Pedi então ao meu irmão que me ajudasse, e ele foi muito prestativo, emprestou a bicicleta, me deu a maior força.
O Edison, três anos mais jovem do que eu, me fez sentar na bike dizendo, todo metido - fique tranquila, pode deixar que eu não solto você, vai pedalando e olhando pra frente! - e lá fui eu, leve e solta, sabendo que ele estava correndo logo atrás, segurando a bike.
Num determinado momento ouvi a voz dele, longe, gritando : "vai tata, isso mesmo, vai...".
Dá pra imaginar o que houve? olhei para trás, me desesperei ao constatar que estava só, perdi completamente o contrôle, atravessei a rua e rolei barranco abaixo.
Era um barranco e tanto antes de cair no lixão...eu e a bicicleta.
Meu irmão e seus amigos chegaram logo em seguida, enquanto eu me levantava, chorando e tirando macarrão dos cabelos.
Não me lembro de ter sentido vergonha maior, e nunca esqueci os sorrisos dos moleques.
Meu irmão tentou aliviar a bronca, desceu o barranco para pegar a bike, queria que eu tentasse novamente.
Mas eu estava mortificada, destruida, envergonhada demais, e queria mata-lo!
Até hoje damos boas gargalhadas quando nos lembramos do episódio, e o Edison jura que a intenção foi me ajudar a ficar mais confiante, mas eu ainda penso que foi muito prematuro, ele soltou muito cedo!
Nunca mais tentei aprender, a não ser quando as crianças e meu marido andavam pelo sitio, em Ibiuna e eu tinha muita vontade de andar também. Cheguei a sentar em uma, determinado dia, mas ao ouvir meu marido dizer : "vai, pode ir que eu seguro" - pulei fora rapidinho...
Essa era a senha para eu descer sem pestanejar rsrsrs
Nunca aprendi, mas imagino que a sensação de liberdade deve ser deliciosa, com o vento no rosto...
E o mano dizendo que queria apenas me ajudar...eu não acredito, e você?