Hoje passei distraida por uma banca de revistas e fui tomada por uma onda de nostalgia.
Gibis! sempre fui louca por eles, desde minha mais antiga lembrança. Aprendi a ler nos gibis, muito mais do que nos livros.
Juntava moedinhas para compra-los, e depois trocava na escola ou na rua, em uma organização tão certa, tão correta, que os grandes banqueiros deviam se inspirar nela hoje em dia rsrs.
Todos liam todos os gibis de todos. E nenhum era repetido, e todos ficavam felizes.
Não me lembro mais do segredo, mas sei que funcionava.
Quando tinha uns onze ou doze anos, meu pai chegou em casa com um exemplar de "Seleções".
Havia feito uma assinatura e eu me senti a grande beneficiada. Lia embevecida, por horas e horas, as historias, crônicas, reportagens. Nada escapava, nem mesmo as propagandas.
Aquilo era tão novo, tão mágico, que eu já não imaginava mais a minha vida sem as "seleções".
Quando aos quatorze anos comecei a trabalhar, tive a grande sorte de ter ao meu lado, como companheira de trabalho e mestra, uma mulher que adorava ler e ensinar.
Norma, esse era seu nome, me apresentou à literatura, abriu para mim as portas desse mundo mágico e delicioso.
Começou me emprestando alguns livros de Monteiro Lobato. Quando esgotamos todo o sitio do Pica Pau Amarelo, ela me apresentou José de Alencar, e depois Machado de Assis. E daí vieram Graciliano Ramos, Ligia Fagundes Telles e muitos outros autores brasileiros.
Sempre que eu terminava um livro, devolvia a ela, que me emprestava outro imediatamente.
Durante o período da leitura - só antes de dormir, pois eu estudava à noite depois do trabalho - ela discutia comigo o assunto, procurava saber se estava gostando, se entendia o que estava lendo.
Emprestou-me também vários autores estrangeiros, como Hemingwai, A.J. Cronin, Pearl S. Book, Aldoux Huxley, Wiliam Faulkner, Charles Dickens e tantos outros que não me ocorrem agora.
Imagine que aos dezesseis anos eu já estava lendo Dostoyeviski, e amando!
Devo muito dessa minha alegria em ler e minha curiosidade sobre tudo, à Norma, minha grande e querida amiga. Ela soube notar em mim uma enorme carência por alguém que me mostrasse caminhos, abrisse portas.
Minha mãe faleceu quando eu tinha apenas dez anos, portanto ela foi fundamental em minha vida.
Perdi Norma de vista quando eu tinha vinte anos e ela mudou de emprego. Foi um convite irrecusável, ela era uma executiva competente, seguiu seu caminho...
Me deixou órfã novamente, mas eu tinha meus livros, já decidia o que ler, visitava a biblioteca da emprêsa, emprestava de amigos.
E depois de casada, com meus filhos pequenos, meu relogio despertava bem antes, para que e pudesse ler tomando um cafezinho, saboreando o silêncio da casa naquelas horas calmas.
Depois de muitos e muitos anos, minha filha caçula já na universidade, encontro um livro sobre sua escrivaninha. Era "cem anos de solidão" de Gabriel Garcia Marquez. Descobri ali um outro grande amor.
Fui arrebatada por sua loucura, seu imenso delirio, uma maneira apaixonada de contar sua terra e sua gente.
Tenho tudo sobre ele, literatura, jornalismo, biografias. Foi e tem sido um grande companheiro em minhas noites de insônia. Lembro-me que ao comprar a ultima biografia dele na livraria, abraçei o livro de encontro ao peito, a caminho do caixa, e senti um calor bem próximo ao coração. É uma grande emoção, pura magia.
Porque contei tudo isso? Porque estive vendo gibis na banca de jornal lembra-se?
Que coisa mais louca!