quarta-feira, 30 de maio de 2012

Por amor?



Mulher jovem, negra e pobre.  Sua casa era a última da vila, chamada de "cortiço", no bairro humilde de maioria operária.
O marido, homem bom,  distraia-se  sentado á porta da sala, rodeado pelos quatro filhos, sempre às voltas com uma fruta para descascar ou simplesmente olhando o movimento da rua.
Trabalhava na industria, serviço pesado, e os horários eram modificados a cada semana.
Mas em cada turno de descanso, lá estava ele sentado nos degraus que levavam á porta da casa.
Pobres, a casa era pequena demais, apenas um quarto e uma sala. A cozinha e o banheiro estavam precisando de reformas, mas as despesas eram muitas, as crianças para alimentar...
No entanto os vizinhos percebiam que eram felizes. Ele tinha gênio bom e ela era uma mulher alegre, limpa, boa mãe.
Isso lá pelos anos 60, quando eu ainda era muito jovem e passava diariamente pelos fundos da vila, vendo seus quintais, indo para meu trabalho.
Ela estava sempre por ali, cedinho, estendendo as roupas no varal ou varrendo o espaço de terra batida.
Abria um sorriso para mim, um bom dia ou um comentário sobre o tempo.
Nada mais do que isso. 
O marido naquela semana estava escalado para o turno da noite, coisa corriqueira,  eles já estavam habituados.
Ela decidiu então, enquanto ele dormia durante o dia, ir com as crianças até o campo que havia ali perto.
Muitos terrenos baldios, os filhos correndo soltos enquanto ela procurava por determinada erva.
Lembrava-se que sua mãe e tia sempre diziam que um chá bem quente e forte dessa erva daria fim ao motivo de sua enorme preocupação.
Não tinha contado ao marido, para não deixa-lo apreensivo. A vida era dura, uma nova boca para alimentar não estava nos planos, ela não levaria aquela gravidez adiante.
Comentara superficialmente com uma prima. Dizia-se triste, amava os filhos que tinha, mas deveria tomar uma atitude antes que a barriga volumosa a condenasse.
Quando o marido foi para o trabalho naquela noite, ela colocou os pequenos para dormir, preparou o chá e tomou bem quente.
Deitou-se de lado e dormiu. Para sempre.
Lembro-me da dor no rosto do marido, da perplexidade dele ao saber o motivo, da impotência diante dos quatro filhos tão pequenos.
Ela que tanto queria evitar-lhe mais problemas, colocou um fim em sua alegria, seus planos e sonhos.
Pobre mãe pobre . . .
Hoje já sou avó e entendo como nunca o que aquela mulher pensava ao deitar-se depois do chá.
Claro que muitos dirão :
- quem cria quatro crianças pode criar cinco, ela errou muito ao provocar um aborto, e etc...
Eu apenas fico triste quando me lembro.  Não é ser pobre, nem negra, nem mulher o que mais me comove nessa historia.
E sim a tremenda solidão do seu ato. 



sexta-feira, 25 de maio de 2012

Pode vir madame!!!




Ao ler a postagem de meu amigo Fábio do "reflexões do 719R" (preciso perguntar a ele o significado desse número) me ocorreu comentar sobre o trânsito na cidade.
Na postagem do Fábio ficamos angustiados com a dificuldade dele em chegar a um compromisso por conta do trânsito insuportável de S.Paulo.
Por aqui o que me irrita é outra coisa.
Seis carros parados no farol e todos já estão stressados com "esse trãnsito maluco!".
O primeiro da fila (para não fugir à regra) é o mais lerdo. Quando dá verde, ele ainda vai engatar a primeira, soltar o freio de mão olhar pelo retrovisor, dar seta, e sair lentamente...
Até aí, tudo bem, cada um dirige como sabe, mas os que estão atrás (todos os 5!) buzinam, xingam, e o farol fecha!
Piada? não, juro que não. É assim mesmo, e isso é muito irritante.
Um motorista desses dirigindo em São Paulo já teria levado umas tantas na traseira para aprender a ficar esperto!
E os outros para aprender a não buzinar na orelha da gente.
Cidade pacata, pouco trânsito e poucas vagas para estacionar.
Então... alquém dá ré para sair de uma  vaga e e o carro que está na sua frente resolve esperar.
Tudo bem se quem está saindo da vaga realmente saísse.
Mas não, ele ainda vai guardar as coisas na bolsa, ligar o rádio, acender um cigarro, colocar o cinto de segurança (tudo com a ré engatada) baixar o freio de mão, olhar 200 vezes para ver se dá para sair, e só então  desocupar a vaga.
Nesse meio tempo, quem está aguardando o lugar já quase enfartou, e quem está atrás já enfartou!
Nas praças (cidade pequena tem praça pra caramba!) existem vagas na transversal, mas existe também aquele senhor alcoolizado, sentado com seu cachorro num banco, esperando para tomar conta do seu carro.
Voce encosta e ele encosta em você.
- pode ficar sossegada que eu olho pra madame!
Minha vontade é de rir, porque ele está cambaleando de tanto beber e não toma conta nem dele mesmo.
Função essa que seu cachorro desempenha melhor.
Mas para evitar algum desaforo eu digo que sim e vou andando. Quando volto, ele está do outro lado da praça conversando com um mendigo (rodeado de cachorros!).
Quando me vê, milagrosamente fica esperto e vem aos pulinhos. Estendo um dinheirinho, para colaborar na pinguinha dele de cada dia, e entro.
Não, não acabou! ele me ajuda a sair da vaga, parando o "trânsito" e fazendo sinais frenéticos (vem madame, vem, madame, pode vir!), para mim e para o coitado do motorista que parou no meio da rua.
Quando finalmente consigo sair ele ainda grita "obrigado madame, vai com Deus!"...
Tenho vontade de dizer a ele que se fosse madame estaria casada com um senador, dirigindo em Paris, com o carro cheio de pacotes. Mas não digo.
Tenho pena, sei que não devia, mas tenho muita pena.
Desafiei o Fábio a vir para Valinhos, onde não há trânsito,  mas ele morreria de tédio...rsrsrs



quarta-feira, 23 de maio de 2012

Engasgada!



Meus dias andam pequenos,  o tempo é curto, não dá para quase nada.
Meu computador com problemas, lento e irritante.
Uma dezena de exames agendados pelo cardiologista, chatos e diários, num sem fim de entradas pela clínica. Tudo  rotina, mas como chateia!
Em uma rápida olhada no jornal da Uol, fico sabendo que o cantor Pedro, filho de Leonardo, saiu do coma, já fala e está deixando a todos malucos de alegria.
Muitos chamam de milagre.  Ora, gente, milagre seria se ele ficasse curado estando em um hospital do SUS!
A equipe médica que o atende no Sirio e Libanês é de primeira linha, aliás, de primeiro mundo.
Os equipamentos são de altíssima tecnologia, os medicamentos caríssimos e modernos, importados a preço de ouro.
Não vou entrar no âmbito da religião, mas deixo perguntas no ar, para criar polêmica:

"Deus dá mais atenção às orações e pedidos para a cura de alguém internado no Sirio e Libanês?
  Lula teria tido a mesma recuperação se tivesse feito tratamento pelo Sus em São Bernardo?
  É justo que apenas alguns tenham acesso a esse tipo de tratamento diferenciado?
  O que voce faria de fosse ministro da saúde? obviamente tentaria mudar esse quadro, mas como?"

Não!  fiquem tranquilos, não sou candidata a cargo politico algum.
Sou apenas uma pessoa que precisa dividir suas angustias e ouvir seus amigos a respeito.
Tenho alguma dificuldade em digerir injustiças, fico engasgada,  e esse assunto é muito atual, quente!
Portanto, por favor, opinem.
E mostrem-me qual a saída desse labirinto,  creio que estou meio perdida...

 

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Enchendo linguiça. . .




Fim de semana um bocadinho fora do normal. Que bom!
Sexta-feira aniversário do filhão querido, apenas beijos e abraços por telefone,  porque mora longe e não deu para falar no skype, pois vai para a faculdade à noite, e trabalha durante o dia.
Sem chance! Para meu filho amoroso e amigo, desejo tudo o que é bom, sem economias.
Sábado fui a São Paulo, com minha amiga Halina. Bom demais! Começamos o dia passando pelo salão da Celina,  também uma amiga de longa data, para uma levantadinha no visual, cabelinho aparado, muita prosa boa e cafezinho.
De lá fomos ao shopping Ibirapuera. Halina queria comprar um suporte para o seu violoncelo.
Sim...! ela toca violoncelo, e violino, e piano!  Confesso que nem sei porque ela me aceita como amiga.
Não toco sequer campainha!
Mas acompanho a minha amiga, olhamos muitos CDs. na livraria, partituras diferentes, e livros também, porque senão não saio mais com ela.
Ela não curte literatura, nem sabe muito bem os nomes de meus autores favoritos ( também não entendo de partituras!) mas fica por ali, folheando e lendo trechos, enquanto eu cheiro, abraço, sinto o calor do livro de encontro ao peito, me emociono.
Almoçamos por lá mesmo, depois de tomar umas dez xícaras de café, por imposição dela. Nem perguntem  para mim quantas cafeterias já visitei com ela. Perdi a conta, sofri com minha gastrite, mas não deixo de ir.
Depois do almoço, mais uma voltinha, mais um cafezinho e voltamos cada uma para sua cidade. Ela Piracicaba, eu Valinhos.
Um sábado e tanto. Perceberam que estou aqui a "encher linguiça"? Juro, não tenho assunto!
Agora, tarde de segunda feira, dois netos aqui em casa que não foram à escola por conta de uma amigdalite, e um bolo "nega maluca" no forno, para incentivar essa criançada a comer.
Então, para distrair quem conseguiu ler até aqui, conto duas passagens vividas por minhas filhas e suas duas "artistas".
Uma delas, Lara, de 2 anos e 10 meses, no colo da mãe, na fila do caixa da farmácia.
O rapaz levanta-se para trocar de expediente com o colega, abre a portinhola e sai.
Ele é um anão. Minha netinha - nunca tinha visto um - olha espantadíssima para o moço e diz, alto e bom som, para a mãe:

- Olha mamãe, que pequenininho, igual ao da Branca de Neve!
Mãe sem saber onde enfiar a cara,  anão sorrindo com o inusitado, e todos na fila riram também.

Outra neta, Valentina, 5 anos, também no caixa da padaria. Não no mesmo dia!
Minha filha pagando para a moça, que é estrábica (é assim que se escreve?) popularmente chamada de vêsga.

Valentina observando, atenta...e então solta sua pérola:

- mamãe, pra onde ela esta olhando?

Ai, ai!  queria ser uma mosca para ver a reação de minha filha! rsrsrsrs

Voce quer me contar um mico que já pagou com criança? eu adoraria saber!
Chega de conversa mole, vou visitar os blogs amigos. Até lá!


quarta-feira, 16 de maio de 2012

Placidamente. . .





Quando os pássaros iniciavam a algazarra da alvorada e o sol aparecia tímido acima da planície, ele já estava trabalhando na lavoura.
A grande usina de açúcar e alcool, com seus fornos e caldeiras enormes e vorazes, consumiam tanta cana quanto era possível colher.
Tarefa penosa, costas curvadas, facão na mão. Os filhos mais velhos - mas ainda crianças - estavam ao seu lado, resignados.
Assumia também outra função na fazenda. Ia a cavalo, em dias alternados, até a cidade para buscar o correio, comprar remédios, levar documentos ao cartório.  Tudo o que o patrão ordenasse.
Quando as industrias têxteis se instalaram na cidade próxima,  os filhos começaram a emigrar. Ele não viveria sem os filhos, sem o barulho deles, sendo pai amoroso e companheiro.
Mudou-se então o homem para a cidade, trabalhar em uma olaria com direito a casa e salário.
Deixou para trás apenas as lembranças e uma lápide sobre a sepultura da filha caçula, morta na adolescência,  de uma breve doença.
A mulher, companheira sempre alegre, mudara muito. Andava pensativa, lembrava-se da filha, sentia-se doente.  Poucos anos depois e o destino - cruel e injusto - haveria de acrescentar mais uma dor em sua historia.  Perderia  mais um filho, jovem,  bonito, cabelos ruivos como ela,  sardas no nariz.
Ela desmoronou. Eram insônias, visões, desânimos. Houve o diagnóstico de depressão, e depois de longo tempo de melhoras e recaídas, o encaminhamento para hospital psiquiátrico.

Naquela manhã de julho o homem sentou-se ao lado dela no assento traseiro do carro de aluguel. À frente o motorista e um primo sempre presente.
Ela apática olhando a paisagem. Ele triste, muito triste.
Era longe, quando chegaram foi tudo muito rápido. Papéis, documentos, malas.
Despedidas e acenos ausentes por parte dela, mas dolorosos e intermináveis da parte dele.

O primo sugere então: - tem um bar aqui em frente, vamos tomar um guaraná antes de voltarmos.
Sentaram-se à mesa,  a mesma mesa que minutos depois sustentaria o homem morto, fulminado por um infarto que colocou um fim naquela tristeza do tamanho do mundo.

Essa é a historia de meu avô Plácido, pai de papai, que morreu aos 54 anos, de tristeza.

Lembro-me dele sorrindo, feliz e brincalhão, porque não estava por perto nesses momentos de dor.
Não pretendia escrever um texto triste, mas foi impossivel, porque por mais alegre que tenha sido a trajetória, o fim deixou a familia chocada.
Esses fatos são lembranças fragmentadas e conversas que ouvi de meus familiares.
Meu avô era carinhoso com as noras e genros e amigo dos filhos como poucos foram em sua época.
Para ele meu respeito e minha saudade.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Sabedoria. . .



O cenário é a cozinha da casa de meu irmão.  A conversa, entre irmãos e sobrinhos era sobre a exploração infantil, ou do adolescente, no trabalho.
Em um determinado momento, meu irmão diz:
- Ivani, lembra-se do que voce fazia com seu envelope de pagamento?
Então me lembrei que eu sequer abria o envelope na emprêsa. Levava-o fechado para meu pai.
Em casa ele abria, contava o dinheiro e conferia com o extrato, tirava algumas notas que normalmente nem chegavam a 10% do salário e me entregava.
Detalhe:- esse dinheiro era para o transporte, eventualmente um sorvete ou quem sabe um caderno porque eu estudava à noite.
Meu pai, após estender o dinheiro, dizia:
- se voce precisar de alguma coisa durante o mês, me fale.
E era assim mesmo. Se furava uma meia, ou se eu resolvesse fazer um passeio, um cinema, tinha que pedir dinheiro. E ele dava, não sem antes me passar um sabão, reclamando que eu estava gastando muito.

A conversa na cozinha ficou acalorada! Meu irmão dizendo que também com ele era assim, e que no sábado, quando ia ao baile no clube, ou sair com alguma garota, meu pai dava um dinheiro, mas dizia para ele economizar, e trazer o trôco!

E isso porque tínhamos a carteira de trabalho do menor, a partir dos 14 anos.
Éramos registrados como funcionários em industrias multinacionais de Osasco. E meus irmãos também estudavam à noite.

Tempos duros? Você acha? Pois saiba que para nós aquilo era normal. Tínhamos que ajudar em casa, financeiramente,  papai era autoritário e sua juventude também tinha sido dessa maneira.
Não bebíamos, as roupas eram muito simples, os sapatos eram usados até acabar, as meias cerzidas.
Nunca alguém nos ofereceu droga.  Ninguém era bandido, ou traficante, ou prostituta entre os jovens amigos nossos. Todos com pais severos e controladores.

Em certo momento da prosa eu pergunto ao meu irmão:
-Isso te magoa, voce tem lembranças ruins daquela época?
E ele com lágrimas nos olhos:
- Imagine! faria tudo novamente, entregaria hoje meu cartão de banco ao papai, para ele controlar. Faria qualquer coisa para levar uma bronca dele, para ouvi-lo dizer que queria o trôco.

Pois então. Éramos felizes em nossa simplicidade. A mesa era farta, a casa limpa, andávamos com a cabeça erguida e sem medo de nada.
Uma realidade bem diversa da que vemos hoje, com jovens insatisfeitos e pais desnorteados, com medo de serem "severos demais" , "invasivos demais".

Penso que meu pai foi parceiro demais, chamando para si a responsabilidade de não criar pessoas consumistas e irresponsáveis. Com sua falta de cultura, mas imensa sabedoria, apenas aplicou o que aprendeu.

Quer entrar nessa prosa lá na cozinha do mano?  Dê sua opinião!

sábado, 5 de maio de 2012

Lembrando dela



Hoje percebo que já não me lembro do sorriso dela.
Lembro-me da cor dos cabelos, e do verde do olhar. E se ficar bem quieta, consigo até me lembrar de sua voz.
Lembro-me da cor da pele, das sardas, do brinco na orelha.  Pensando bem eu me lembro até de algumas peças de roupa, de um par de sapatos.
Lembro-me de um cinto...que ela usava com uma saia cinza.  Um pequeno esforço de memória e me lembro dos encontros de comadres, as conversas sussurradas para que as crianças não ouvissem.
E também me lembro da barrigona, na gravidez dos gêmeos,  e das dores que a fizeram andar pela casa noite a dentro, no momento do parto.
E os pedidos de ajuda quando não dava conta das crianças, as vezes ela chorava, porque sentia-se impotente.
E a alegria e orgulho em exibir os quatro filhos. Três meninos, eu menina.
E consigo vê-la, entre as minhas pequenas amigas, ensinando cantigas de roda e brincadeiras de rua. Sabia tantas, cantava tantas modinhas!  Ela amava recordar as brincadeiras na fazenda onde foi criada. A fazenda Samambaia.
Era severa quando necessário. Não esqueço que levei uns tapas no dia da minha Primeira Comunhão, já vestida de noivinha. Fui mal-criada e ela não perdeu a chance de me punir.
Mesmo que nunca a esqueça, é nessa semana que antecede o dia das mães que me lembro mais.
Fazem tantos anos que a vida é assim,  e ela se foi quando eu era tão pequena, que não conheço outra maneira de homenagear. Tem que ser contando, falando...para não apagar.

Penso que não tem importância se o seu sorriso vem sempre envolto em nuvens e eu não vejo,  nem ouço.

A minha alegria vem dela, temperada com a malícia de meu pai, a rabugice de minha avó materna, a ternura de meus avôs,  e a loucura da avó paterna.
Tudo misturado e remexido,  só podia dar essa sopa de letrinhas, que vocês tão gentilmente vêm tomar às colheradas. Obrigada.

Flores para Dona Alzira, minha mãe.








quinta-feira, 26 de abril de 2012

A vila...



Bastava atravessar a rua.
Na vila operária onde morávamos, em Osasco, anos 50, as casas eram simples, porém confortáveis e bonitas.
Eram casas rente à rua, com a porta da sala abrindo para a calçada. Feitas em tijolo vermelho, aparentes, com as janelas e portas pintadas em branco. Sobre a porta da sala um pequeno telhado protegia do sol e da chuva.
As fotos acima são do local, atuais, com as casas já alteradas, mas mantendo o charme.
Apenas uma rua,  simples e bela rua.  Muitas árvores com bancos sob a sombra, onde brincávamos e os adultos sentavam-se para um papinho no fim de tarde.
Ali moravam apenas funcionários que deveriam estar sempre perto da industria para qualquer eventualidade fora do horário.
Eram encantadoras aquelas casas e moramos por alí um tempo delicioso de nossas vidas, quando minha mãe ainda estava conosco, e todo o universo conspirava a nosso favor.
A escola era próxima, dois quarteirões,  que eu e o meu irmão Edison percorriamos entre brincadeiras e correrias com amigos, também filhos de funcionários.
O terreno baldio ao lado da vila era campo de futebol, espaço para soltar pipas, jogar pião, brincar de bolinha de gude, enfim, era a alegria da molecada.
A noite a rua era nossa, com correria de pega-pega, brincadeira de roda, esconde-esconde,  amarelinha.

Mas como eu disse lá no começo, bastava atravessar a rua...e a casa em frente me fascinava.
Todas eram iguais, mas aquela casa era especial. Ali morava uma menina, filha única, de um casal lindíssimo.
A mulher alta e bem vestida, tinha sempre os cabelos impecáveis e usava um avental na cintura. O marido, saia para o trabalho tão bem arrumado, que eu não acreditava que era funcionário da mesma emprêsa, uma metalurgica.
Com os anos vim a entender que ele trabalhava na administração, portanto, vestia-se melhor. A menina então, era uma princesa.
Os laços de seus cabelos eram sempre os mais lindos, e seu uniforme de uma escola particular, de freiras, era tão diferente dos nossos...
E bastava atravessar a rua, mas ela nunca brincava conosco, nunca sentava-se no banco de cimento, e sua mãe não permitia que ficasse muito à janela para não tomar "friagem".
Lembro-me dela como um bibelô, delicado e pálido, saindo apenas com os pais. Acenava para as crianças da rua, mas nunca brincava conosco.
Aos domingos íamos ao matinê, assistir ao filme principal e ao seriado semanal, divertido e imperdível.
Ela não, nunca foi.
Muitos anos mais tarde, todos nós adultos, cursando o colégio á noite, descobri com muita alegria que fazíamos o mesmo curso. Ela estava ainda linda, com a pele muito clara, cabelos louros, feliz.
Contou-me que tinha muita vontade de brincar conosco, sentia muita saudade das gargalhadas que ouvia da sala, dos gritos de "peguei" ou "estátua", ou das cantigas de roda.
Não julgava a mãe, mas disse-me que perdeu boa parte da infância por culpa dos pais super protetores.
Casou-se com um amigo nosso, um rapaz bonito e querido, disputadíssimo entre as garotas do colégio.
E foi na gravidez do primeiro filho deles que a doença dela se manifestou. Tão violenta, tão implacável, que ela não resistiu. Salvaram o bebê, um menino, que o pai, em grande desespêro, deixou com os avós e foi trabalhar em outro país, acreditando que essa atitude o faria esquecer o grande drama que estava vivendo.
Pobre menina linda, pálida e só. E pobre bebê, sem mãe e sem pai, sendo entregue ao casal impecável e perfeito, ávido por dar ao neto todo o carinho antes canalizado para a filha.
Triste destino esse, mundo cruel e sem explicação, sem justiça e sem noção.
Sinto muita saudade daquela época, das casas e dos amigos, mas não consigo  esquecer que bastava atravessar a rua para perceber a grande diferença entre felicidade e solidão.




fotos tomadas por empréstimo do blog : contandohistorias-osasco.blogspot.com
de José Luiz Alves de Oliveira

terça-feira, 24 de abril de 2012

Flores para voces


Folheando uma antiga revista me encantei com um artigo muito interessante, mostrando várias fotos de lirios - a flor - e a importância deles para os povos gregos.
Na mitologia o lirio nasceu de uma gota da lua que caiu na terra.
Seu significado era de proteção, pureza. Acreditavam que plantando os lirios em volta de casa estavam protegidos contra os males , principalmente espirituais.
Na fase do enraizamento da cultura cristã os lirios também eram vistos como protetores contra o mal.
Foi a flor dedicada pelos cristãos á pureza da Virgem Maria.
E hoje acredita-se que essa flor promova a purificação de ambientes, pois absorve alguns elementos tóxicos.
Muito interessante, não é mesmo?
Minha doce amiga Nina, do blog "meu pensamento viaja" que mora lá na cidade do Porto, em Portugal, certa vez mencionou os lirios em uma conversa sobre flores. Estava em dúvida se os conhecia direito. Olha só Nina, esses são os nossos lirios aqui no Brasil, seriam parecidos com os seus?


Acredito que sim. são lindos e cheirosos.
Como ando meu doentinha, sem ânimo para escrever alguma coisa mais íntima, mais de meu perfil, deixo aqui algumas flores que amo, principalmente as amarelas, e prometo que volto muito rapidinho a visitar voces.

Margaridas alegres, brancas, que forravam o jardim de meu sitio, dando a ele um contagiante frescor.



Margaridas amarelas, minhas favoritas, que floresciam às margens da rodovia, forrando metros e metros de beleza e esperança : "estamos chegando". Era uma festa ve-las ano após ano...


Hortências, as flores favoritas de minha mãe.  Nunca entendi porque não consigo cultiva-las.
Simplesmente não vingam, e eu as acho maravilhosas.


Orquideas, soberbas, orgulhosas e delicadas.  Muitas cores, muitas formas, mas a amarela é perfeita!


E as rosas, o que dizer delas?  Apenas maravilhosas, qualquer que seja a cor.


E voces, contem para mim quais são suas favoritas. Vou adorar saber.



domingo, 15 de abril de 2012

Pastel com garapa?!



Adoro feira livre.  Elas fazem parte de minha historia. Houve época que eram disputadíssimas, e na cidade onde fui criada as feiras eram magníficas. Desde muito pequena ia com minha mãe ás compras no domingo.
De lá já vínhamos com a "mistura" para o almôço,  verduras e legumes para a semana toda, banana e laranja, uma melancia quando era época. As frutas de época sempre serão mais baratas.
A linguiça, os peixes, os queijos, tudo era embrulhado em jornal. Tinhamos que chegar em casa e lavar, rapidinho, pois corria-se o risco de comer o queijo lendo as noticias da semana anterior.
Quanto á geleia, mesclada, que fazia nossos suspiros dobrarem, essa era embalada em papel pardo, pois não poderia ser lavada. E os galinhos de açúcar queimado? Hummm!
Mamãe levava uma tigelinha para trazer manteiga fresca, que era pesada em grandes colheradas diretamente na vasilha.
As batatas, cebolas, tomates, eram pesados e jogados dentro da sacola, tudo misturado.



Já casada, sempre fui á feira perto de casa. Elas eram imensas, ruas e ruas repletas de barracas de verduras, frutas, legumes, frios, cereais...enfim, uma loucura. As bancas de roupas, sapatos, armarinhos, brinquedos, aluminios e louças, ficavam bem lá  no fim da feira. Ou no começo para quem vinha ao contrário.
Delicioso percurso sentindo os cheiros, encontrando amigos, experimentando frutas, ouvindo os donos das barracas chamando as freguesas.
E a banca do pastel? Um espetáculo à parte! Oito horas da manhã e não chegava-se perto, muita gente comendo pastel frito e tomando "garapa" de cana.
Que delicia que era aquilo.
Sei que na cidade aqui ao lado, Campinas, ainda tem algumas feiras livres. Mas não tem mais o encanto daquelas.
Aqui onde moro, temos  tres ou quatro barracas, no domingo, que ousam chamar de feira.
Nem vou até lá para não ficar nervosa. Acho deprimente,  anda-se dez passos e chega-se ao fim da feira.
Voces podem me taxar de saudosista, eu não ligo, mas que eram deliciosas nossas feiras, isso eram.
Soube que continuam por lá, nas mesmas ruas, e ainda são enormes e bem frequentadas.
Qualquer dia vou. Quero comer pastel,  tomar garapa (depois ter uma grande dor de barriga) e andar devagar apreciando as ofertas, sentindo os cheiros, pisando nas pedras da cidade que gosto tanto e da qual sinto muita falta. Deixei lá um pedaço de mim.
Sei que não vou resgatar o que deixei, mas posso ao menos olhar em volta e sorrir, sabendo que já fiz parte daquilo tudo um dia.
Tem coisa melhor nesse mundo do que poder voltar e deixar que seus olhos se fartem de imagens tão queridas?
Não , não tem. Ou melhor, tem sim :- experimentar abacaxi cortado na hora, enfiado na ponta da faca, com um rapaz sorridente dizendo "...é mais doce que mel freguesa, mais doce que mel. . .!"