quinta-feira, 10 de maio de 2012

Sabedoria. . .



O cenário é a cozinha da casa de meu irmão.  A conversa, entre irmãos e sobrinhos era sobre a exploração infantil, ou do adolescente, no trabalho.
Em um determinado momento, meu irmão diz:
- Ivani, lembra-se do que voce fazia com seu envelope de pagamento?
Então me lembrei que eu sequer abria o envelope na emprêsa. Levava-o fechado para meu pai.
Em casa ele abria, contava o dinheiro e conferia com o extrato, tirava algumas notas que normalmente nem chegavam a 10% do salário e me entregava.
Detalhe:- esse dinheiro era para o transporte, eventualmente um sorvete ou quem sabe um caderno porque eu estudava à noite.
Meu pai, após estender o dinheiro, dizia:
- se voce precisar de alguma coisa durante o mês, me fale.
E era assim mesmo. Se furava uma meia, ou se eu resolvesse fazer um passeio, um cinema, tinha que pedir dinheiro. E ele dava, não sem antes me passar um sabão, reclamando que eu estava gastando muito.

A conversa na cozinha ficou acalorada! Meu irmão dizendo que também com ele era assim, e que no sábado, quando ia ao baile no clube, ou sair com alguma garota, meu pai dava um dinheiro, mas dizia para ele economizar, e trazer o trôco!

E isso porque tínhamos a carteira de trabalho do menor, a partir dos 14 anos.
Éramos registrados como funcionários em industrias multinacionais de Osasco. E meus irmãos também estudavam à noite.

Tempos duros? Você acha? Pois saiba que para nós aquilo era normal. Tínhamos que ajudar em casa, financeiramente,  papai era autoritário e sua juventude também tinha sido dessa maneira.
Não bebíamos, as roupas eram muito simples, os sapatos eram usados até acabar, as meias cerzidas.
Nunca alguém nos ofereceu droga.  Ninguém era bandido, ou traficante, ou prostituta entre os jovens amigos nossos. Todos com pais severos e controladores.

Em certo momento da prosa eu pergunto ao meu irmão:
-Isso te magoa, voce tem lembranças ruins daquela época?
E ele com lágrimas nos olhos:
- Imagine! faria tudo novamente, entregaria hoje meu cartão de banco ao papai, para ele controlar. Faria qualquer coisa para levar uma bronca dele, para ouvi-lo dizer que queria o trôco.

Pois então. Éramos felizes em nossa simplicidade. A mesa era farta, a casa limpa, andávamos com a cabeça erguida e sem medo de nada.
Uma realidade bem diversa da que vemos hoje, com jovens insatisfeitos e pais desnorteados, com medo de serem "severos demais" , "invasivos demais".

Penso que meu pai foi parceiro demais, chamando para si a responsabilidade de não criar pessoas consumistas e irresponsáveis. Com sua falta de cultura, mas imensa sabedoria, apenas aplicou o que aprendeu.

Quer entrar nessa prosa lá na cozinha do mano?  Dê sua opinião!

sábado, 5 de maio de 2012

Lembrando dela



Hoje percebo que já não me lembro do sorriso dela.
Lembro-me da cor dos cabelos, e do verde do olhar. E se ficar bem quieta, consigo até me lembrar de sua voz.
Lembro-me da cor da pele, das sardas, do brinco na orelha.  Pensando bem eu me lembro até de algumas peças de roupa, de um par de sapatos.
Lembro-me de um cinto...que ela usava com uma saia cinza.  Um pequeno esforço de memória e me lembro dos encontros de comadres, as conversas sussurradas para que as crianças não ouvissem.
E também me lembro da barrigona, na gravidez dos gêmeos,  e das dores que a fizeram andar pela casa noite a dentro, no momento do parto.
E os pedidos de ajuda quando não dava conta das crianças, as vezes ela chorava, porque sentia-se impotente.
E a alegria e orgulho em exibir os quatro filhos. Três meninos, eu menina.
E consigo vê-la, entre as minhas pequenas amigas, ensinando cantigas de roda e brincadeiras de rua. Sabia tantas, cantava tantas modinhas!  Ela amava recordar as brincadeiras na fazenda onde foi criada. A fazenda Samambaia.
Era severa quando necessário. Não esqueço que levei uns tapas no dia da minha Primeira Comunhão, já vestida de noivinha. Fui mal-criada e ela não perdeu a chance de me punir.
Mesmo que nunca a esqueça, é nessa semana que antecede o dia das mães que me lembro mais.
Fazem tantos anos que a vida é assim,  e ela se foi quando eu era tão pequena, que não conheço outra maneira de homenagear. Tem que ser contando, falando...para não apagar.

Penso que não tem importância se o seu sorriso vem sempre envolto em nuvens e eu não vejo,  nem ouço.

A minha alegria vem dela, temperada com a malícia de meu pai, a rabugice de minha avó materna, a ternura de meus avôs,  e a loucura da avó paterna.
Tudo misturado e remexido,  só podia dar essa sopa de letrinhas, que vocês tão gentilmente vêm tomar às colheradas. Obrigada.

Flores para Dona Alzira, minha mãe.








quinta-feira, 26 de abril de 2012

A vila...



Bastava atravessar a rua.
Na vila operária onde morávamos, em Osasco, anos 50, as casas eram simples, porém confortáveis e bonitas.
Eram casas rente à rua, com a porta da sala abrindo para a calçada. Feitas em tijolo vermelho, aparentes, com as janelas e portas pintadas em branco. Sobre a porta da sala um pequeno telhado protegia do sol e da chuva.
As fotos acima são do local, atuais, com as casas já alteradas, mas mantendo o charme.
Apenas uma rua,  simples e bela rua.  Muitas árvores com bancos sob a sombra, onde brincávamos e os adultos sentavam-se para um papinho no fim de tarde.
Ali moravam apenas funcionários que deveriam estar sempre perto da industria para qualquer eventualidade fora do horário.
Eram encantadoras aquelas casas e moramos por alí um tempo delicioso de nossas vidas, quando minha mãe ainda estava conosco, e todo o universo conspirava a nosso favor.
A escola era próxima, dois quarteirões,  que eu e o meu irmão Edison percorriamos entre brincadeiras e correrias com amigos, também filhos de funcionários.
O terreno baldio ao lado da vila era campo de futebol, espaço para soltar pipas, jogar pião, brincar de bolinha de gude, enfim, era a alegria da molecada.
A noite a rua era nossa, com correria de pega-pega, brincadeira de roda, esconde-esconde,  amarelinha.

Mas como eu disse lá no começo, bastava atravessar a rua...e a casa em frente me fascinava.
Todas eram iguais, mas aquela casa era especial. Ali morava uma menina, filha única, de um casal lindíssimo.
A mulher alta e bem vestida, tinha sempre os cabelos impecáveis e usava um avental na cintura. O marido, saia para o trabalho tão bem arrumado, que eu não acreditava que era funcionário da mesma emprêsa, uma metalurgica.
Com os anos vim a entender que ele trabalhava na administração, portanto, vestia-se melhor. A menina então, era uma princesa.
Os laços de seus cabelos eram sempre os mais lindos, e seu uniforme de uma escola particular, de freiras, era tão diferente dos nossos...
E bastava atravessar a rua, mas ela nunca brincava conosco, nunca sentava-se no banco de cimento, e sua mãe não permitia que ficasse muito à janela para não tomar "friagem".
Lembro-me dela como um bibelô, delicado e pálido, saindo apenas com os pais. Acenava para as crianças da rua, mas nunca brincava conosco.
Aos domingos íamos ao matinê, assistir ao filme principal e ao seriado semanal, divertido e imperdível.
Ela não, nunca foi.
Muitos anos mais tarde, todos nós adultos, cursando o colégio á noite, descobri com muita alegria que fazíamos o mesmo curso. Ela estava ainda linda, com a pele muito clara, cabelos louros, feliz.
Contou-me que tinha muita vontade de brincar conosco, sentia muita saudade das gargalhadas que ouvia da sala, dos gritos de "peguei" ou "estátua", ou das cantigas de roda.
Não julgava a mãe, mas disse-me que perdeu boa parte da infância por culpa dos pais super protetores.
Casou-se com um amigo nosso, um rapaz bonito e querido, disputadíssimo entre as garotas do colégio.
E foi na gravidez do primeiro filho deles que a doença dela se manifestou. Tão violenta, tão implacável, que ela não resistiu. Salvaram o bebê, um menino, que o pai, em grande desespêro, deixou com os avós e foi trabalhar em outro país, acreditando que essa atitude o faria esquecer o grande drama que estava vivendo.
Pobre menina linda, pálida e só. E pobre bebê, sem mãe e sem pai, sendo entregue ao casal impecável e perfeito, ávido por dar ao neto todo o carinho antes canalizado para a filha.
Triste destino esse, mundo cruel e sem explicação, sem justiça e sem noção.
Sinto muita saudade daquela época, das casas e dos amigos, mas não consigo  esquecer que bastava atravessar a rua para perceber a grande diferença entre felicidade e solidão.




fotos tomadas por empréstimo do blog : contandohistorias-osasco.blogspot.com
de José Luiz Alves de Oliveira

terça-feira, 24 de abril de 2012

Flores para voces


Folheando uma antiga revista me encantei com um artigo muito interessante, mostrando várias fotos de lirios - a flor - e a importância deles para os povos gregos.
Na mitologia o lirio nasceu de uma gota da lua que caiu na terra.
Seu significado era de proteção, pureza. Acreditavam que plantando os lirios em volta de casa estavam protegidos contra os males , principalmente espirituais.
Na fase do enraizamento da cultura cristã os lirios também eram vistos como protetores contra o mal.
Foi a flor dedicada pelos cristãos á pureza da Virgem Maria.
E hoje acredita-se que essa flor promova a purificação de ambientes, pois absorve alguns elementos tóxicos.
Muito interessante, não é mesmo?
Minha doce amiga Nina, do blog "meu pensamento viaja" que mora lá na cidade do Porto, em Portugal, certa vez mencionou os lirios em uma conversa sobre flores. Estava em dúvida se os conhecia direito. Olha só Nina, esses são os nossos lirios aqui no Brasil, seriam parecidos com os seus?


Acredito que sim. são lindos e cheirosos.
Como ando meu doentinha, sem ânimo para escrever alguma coisa mais íntima, mais de meu perfil, deixo aqui algumas flores que amo, principalmente as amarelas, e prometo que volto muito rapidinho a visitar voces.

Margaridas alegres, brancas, que forravam o jardim de meu sitio, dando a ele um contagiante frescor.



Margaridas amarelas, minhas favoritas, que floresciam às margens da rodovia, forrando metros e metros de beleza e esperança : "estamos chegando". Era uma festa ve-las ano após ano...


Hortências, as flores favoritas de minha mãe.  Nunca entendi porque não consigo cultiva-las.
Simplesmente não vingam, e eu as acho maravilhosas.


Orquideas, soberbas, orgulhosas e delicadas.  Muitas cores, muitas formas, mas a amarela é perfeita!


E as rosas, o que dizer delas?  Apenas maravilhosas, qualquer que seja a cor.


E voces, contem para mim quais são suas favoritas. Vou adorar saber.



domingo, 15 de abril de 2012

Pastel com garapa?!



Adoro feira livre.  Elas fazem parte de minha historia. Houve época que eram disputadíssimas, e na cidade onde fui criada as feiras eram magníficas. Desde muito pequena ia com minha mãe ás compras no domingo.
De lá já vínhamos com a "mistura" para o almôço,  verduras e legumes para a semana toda, banana e laranja, uma melancia quando era época. As frutas de época sempre serão mais baratas.
A linguiça, os peixes, os queijos, tudo era embrulhado em jornal. Tinhamos que chegar em casa e lavar, rapidinho, pois corria-se o risco de comer o queijo lendo as noticias da semana anterior.
Quanto á geleia, mesclada, que fazia nossos suspiros dobrarem, essa era embalada em papel pardo, pois não poderia ser lavada. E os galinhos de açúcar queimado? Hummm!
Mamãe levava uma tigelinha para trazer manteiga fresca, que era pesada em grandes colheradas diretamente na vasilha.
As batatas, cebolas, tomates, eram pesados e jogados dentro da sacola, tudo misturado.



Já casada, sempre fui á feira perto de casa. Elas eram imensas, ruas e ruas repletas de barracas de verduras, frutas, legumes, frios, cereais...enfim, uma loucura. As bancas de roupas, sapatos, armarinhos, brinquedos, aluminios e louças, ficavam bem lá  no fim da feira. Ou no começo para quem vinha ao contrário.
Delicioso percurso sentindo os cheiros, encontrando amigos, experimentando frutas, ouvindo os donos das barracas chamando as freguesas.
E a banca do pastel? Um espetáculo à parte! Oito horas da manhã e não chegava-se perto, muita gente comendo pastel frito e tomando "garapa" de cana.
Que delicia que era aquilo.
Sei que na cidade aqui ao lado, Campinas, ainda tem algumas feiras livres. Mas não tem mais o encanto daquelas.
Aqui onde moro, temos  tres ou quatro barracas, no domingo, que ousam chamar de feira.
Nem vou até lá para não ficar nervosa. Acho deprimente,  anda-se dez passos e chega-se ao fim da feira.
Voces podem me taxar de saudosista, eu não ligo, mas que eram deliciosas nossas feiras, isso eram.
Soube que continuam por lá, nas mesmas ruas, e ainda são enormes e bem frequentadas.
Qualquer dia vou. Quero comer pastel,  tomar garapa (depois ter uma grande dor de barriga) e andar devagar apreciando as ofertas, sentindo os cheiros, pisando nas pedras da cidade que gosto tanto e da qual sinto muita falta. Deixei lá um pedaço de mim.
Sei que não vou resgatar o que deixei, mas posso ao menos olhar em volta e sorrir, sabendo que já fiz parte daquilo tudo um dia.
Tem coisa melhor nesse mundo do que poder voltar e deixar que seus olhos se fartem de imagens tão queridas?
Não , não tem. Ou melhor, tem sim :- experimentar abacaxi cortado na hora, enfiado na ponta da faca, com um rapaz sorridente dizendo "...é mais doce que mel freguesa, mais doce que mel. . .!"


terça-feira, 10 de abril de 2012

Um poeta da emoção



Acabo de ler um pequeno e lindo texto de José Saramago, sobre filhos.
Esse homem incrível, infelizmente já morto,  deixou livros maravilhosos e contos emocionantes.
Entrevistas fantásticas, lúcidas, onde ele se despia de sua habitual timidez e nos dava uma lição de humildade e emoção à flor da pele. Seus poemas são puros, transparentes, deliciosos.
E dos seus pequenos e perfeitos textos, foi esse que li hoje:

"Filho é um ser que nos emprestaram para um curso intensivo de como amar alguém além de nós mesmos, de como mudar nossos piores defeitos para darmos os melhores exemplos e de aprendermos a ter coragem. Isto mesmo ! Ser pai ou mãe é o maior ato de coragem que alguém pode ter, porque é se expor a todo tipo de dor, principalmente da incerteza de estar agindo corretamente e do medo de perder algo tão amado. Perder? Como? Não é nosso, recordam-se? Foi apenas um empréstimo".

Creio que muitos já tiveram o prazer dessa leitura, assim como eu, em mensagens que andam pela internet.
Porém, hoje eu li...li com os olhos, o coração e a alma.
Li com toda a minha fragilidade, minha emoção, minha maturidade.
Li com meus medos, meus horrores, minhas neuras.
Li com meu constante geladinho no estômago, meu aperto na garganta, milhas lágrimas insistindo em rolar.
Li com a certeza absoluta de que por mais que leia nunca vou conseguir escrever um texto tão lindo, tão profundo.
E li com a convicção de que os pais e mães são iguais, quase em sua totalidade, exceto raras exceções.

E depois de alguns minutos de reflexão, volto aqui e digo a vocês, sem medo de errar:

Não existe felicidade maior do que gerar e criar um filho. Passamos por momentos dificeis, até dolorosos, mas as alegrias tão tão imensas e gratificantes, que faria tudo novamente.
Quem optou por não te-los merece toda o meu respeito, jamais julgaria.
Mas como os tive,  agradeço por isso e sou muito grata pelos netos, que são um presente para quem já assistiu a sua ninhada levantar voo.
Obrigada a Saramago por essa pérola que me fez sorrir, como tudo o que escreveu.



terça-feira, 3 de abril de 2012

Na véspera!


Hoje, dia 3 de abril,  véspera de meu aniversário de casamento, 4 de abril de 1970!
Como foi essa véspera?  Pelas minhas retinas passam imagens divertidas, confusas e cansadas
Parece-me que não fui eu...não vivi aquele dia. Estaria nervosa? creio que não.
Passamos boa parte do dia preparando docinhos. Quando digo passamos, é porque lembro-me da ajuda de amigas, primas, parentes da Joana, minha madrasta.  Era um verdadeiro exército de mulheres num corre-corre maluco.
Muitas risadas, muitas piadinhas sobre a noite de nupcias. Elas fariam qualquer coisa para me deixar encabulada. E conseguiam!
E vamos aos brigadeiros, cajuzinhos, olhos de sogra, beijinhos. Tudo enrolado, passado no açúcar, ou no chocolate, ou no coco ralado.  Uma confusão de mãos sobre a mesa da copa, rápidas e caprichosas,  ávidas por ajudar.
Na cozinha os bolos sendo assados, depois recheados e cobertos com glacê branco. Cadê os noivinhos?
Não comprou? sim, lá estavam eles, abraçados e sorrindo, aguardando na caixinha o seu momento de brilhar.
O pai da noiva, emocionado e feliz, correndo de lá para cá preparando as caixas para colocar as cervejas no gelo,  esticar a lona no quintal (e se chover?) providenciar mesas longas e fortes, de madeira, para que todos ficassem confortáveis.
O irmão chega do quartel, cabeça raspada, lindo, as meninas ficam animadinhas, pedem que ele ajude. Não se faz de rogado, lava louças, conta piadas, uma delicia!
Os outros irmãos felizes, ajudando o papai. A pequena dama de honra sonhando acordada com o momento de usar  o vestidinho novo.
Quando a noite nos encontra, exaustos mas felizes, chega o noivo, nervoso, será que tudo vai dar certo?
Porque não daria meu bem?
Bolo confeitado, docinhos sobre a mesa cobertos com toalha...
Os noivinhos quietinhos na caixa, esperando... de mãos dadas.
O vestido no cabide, no quarto, só aguardando...
Os sapatos brancos sobre a cômoda, com a nuvem de véus e as luvas...
E voce homem de Deus, nervoso porque?  Diga aqui pra mim, nervoso porque?
E ele com um sorriso lindo, um olhar castanho e um jeito maroto de menino:-

"penso se vamos suportar tanta felicidade, penso se realmente estamos vivendo tudo isso".

Sim querido, vivemos tudo isso, e saiba que valeu cada dia, cada ano.
Sinto saudades suas, faria tudo novamente. Um beijo meu.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Como um sonho



Quando depositou a mala nas pedras frias e bastante gastas da velha estação, um suspiro profundo chegou até a garganta.
Mas ela o engoliu.
Havia jurado, para si mesma, que tudo seria sem lágrimas nem dramas.
O dia mal havia clareado, muito cedo ainda, e naquelas horas de pouca luz uma brisa soprava suave, geladinha.O horario ideal para uma despedida.
Esses primeiros raios da manhã lembravam sua infãncia, quando descia a rua de terra batida da casa dos pais para ir á escola. Lá embaixo, na planície, caminhava rápido para não se atrasar, passava pela casa da amiga Martha, e iam tagarelando até às margens do riacho que passava ao lado do predio de madeira.
Quanta coisa linda aprendeu naquela escola.  Inclusive aprendeu,  aos dez anos, que a vida podia ser muito mais dura com uma criança do que supunham suas amigas.
Mas sobreviveu, e agora partia. Uma estranha sensação de impotência chegou a deixa-la deprimida por um minuto, talvez nem tanto.
Olhou em volta, sorriu levemente, como Monalisa, aquele sorriso de enigma, mas de poder.
Sim, ela estava indo embora. Trocou de emprego, trocou de roupa, e de enderêço.
Colocou as poucas coisas que realmente valiam a pena na velha mala dos pais e saiu bem devagar da casa que havia sido um lar, um dia.
Voltaria, quem sabe, para matar a saudade. Olha só essa palavra boba já começando a incomodar...
Ao longe o barulho de rodas de ferro deslizando pelos trilhos brilhantes. Um ultimo olhar em volta,  algumas pessoas haviam chegado, silenciosamente, nem notara.
O trem apita na ultima curva antes de surgir, imponente, dono de seu destino, e do dela.
Meninas pobres são assim, valentes e lindas. Ela não tinha medo, era valente e linda, como num filme, como num sonho.

domingo, 25 de março de 2012

Sinistra?



Lá vou eu falar de um assunto que me interessa, e muito.
Muitas das opiniões que direi aqui foram colhidas em leituras que fiz sobre o que significa ser "canhota" nesse mundo feito para destros (ou direitos).
Posso garantir que não existe dificuldade que não seja superada.  Não é de hoje que sou canhota rsrsrs, portanto, já nem me lembro mais que sou. Apenas quando alguém nota, ou quando me deparo com um abridor de latas.
Ou, com uma tesoura. Um apontador de lápis. Um caderno espiral, porque tenho que escrever com a mão em cima do arame.
Câmeras fotográficas, violões, e a famigerada carteira escolar? aquela que tem um quadradinho de madeira sempre do lado direito?
A regua, que me obriga a riscar ao contrário...e por aí afora. Mas tudo isso eu já tiro de letra, sempre tirei.
O que me intriga, sinceramente, é a origem da palavra sinistro. Não lembra coisa ruim?
Quando acontece um acidente o que as pessoas dizem? O veículo sinistrado.
Quando a historia é sobre bruxas ou vampiros, o que dizem? Nossa, que sinistro!
O que nós, pobres canhotos temos com isso?
Na antiguidade, acreditava-se que o canhoto era o contrário do direito, do certo. Jesus mesmo teria dito que estaria ao lado direito do Pai, quando chegasse aos céus.
E porque o correto é estender a mão direita ao cumprimentar alguém?
Antigamente acreditava-se que a esquerda traria azar...ai, ai,  que feio isso!

Vou me consolando em ler os nomes de pessoas famosas que foram ou são canhotas.
Napoleão Bonaparte, Leonardo daVinci, Michelangelo, Beethoven, Charles Chaplin, Airton Senna, Papa João 23, Einstein e...Eric Clapton, Marilyn Monroe, Paul Simon e muitos outros com certeza.

Estou me divertindo ao escrever esse texto, pois sei que muitos  vão dizer que o mundo está cheio de celebridades,  que eu consegui reunir alguns canhotos e já estou toda exibida.
Mas convenhamos, trata-se de uma lista linda!

Portanto,  vamos lá pessoal... começar o dia com o pé esquerdo...!!!



terça-feira, 20 de março de 2012

Como é que é?


Tem dias que me sinto tão impotente. Hoje foi um deles, diante de um fato que ocorreu no banco.
Fila de banco...hoje em dia já não é tão cansativo, pois existem cadeiras, senhas, ar condicionado.
Estava bem distraida, aguardando o sinal eletrônico me chamar que não reparei na mulher gordinha que sentou-se ao meu lado.
Sou meio surda (meus filhos riem quando digo que sou "meio" surda) e quando percebi que a tal mulher falava comigo virei-me para ler seus lábios.
Ela estava falando comigo mesmo! Com uma das mãos em concha na boca, para que a vizinha dela não ouvisse. Disse-me:-
- que falta de educação! isso não se faz com as pessoas, veja se isso tem cabimento!
Fiquei alarmada, afinal, nem sei se perdi algumas palavras, pois a mão em concha dificultava a leitura labial...
Mas do que aquela criatura gordinha estava reclamando?
Depois de mais algumas palavras sussurradas, que não ouvi mesmo, costurei algumas outras e entendi que a vizinha dela falava ao celular.
Resumindo, a mulher (vizinha da gordinha no celular) convidou a pessoa com quem falava a ir junto com ela em um jantar de familia.
Só que a pessoa do outro lado não tinha sido convidada, mas a outra dizia que não tinha problema, era só ir chegando...
Deu pra entender? Tremenda falta de educação, levar alguém num jantar sem ser convidado.
Mas...o que a gordinha do meu lado tinha a ver com isso?
Ela continuou sussurrando, torcendo a boca, mão em concha e eu tentando entender...
Que situação! como as pessoas são ridiculas quando se acham no direito de criticar os outros, sendo que elas mesmo estão sendo invasivas.
E eu alí sentadinha, refém daquela mulher gordinha, de tiara marrom nos cabelos ruivos (falsos!)  torcendo para chamarem meu número.
Até que enfim, chamaram ! levantei-me pedindo licença e ainda consegui ouvir a redondinha falando pra mim:- "tem gente que não se enxerga..."!

Aff! foi muito cansativa minha tarde de hoje.